... this is not a blog!
Voava para o Recife na madrugada de sexta para sábado, e lia alguns emails — até hoje recebo mensagens da lista do Centro Acadêmico da Computação (CACo) e do Grupo Pró Software Livre (GPSL), de que participei (o segundo ajudei a fundar) quando da minha graduação; integrei o CACo também durante o mestrado. Uma mensagem, então, chamou minha atenção: era um estudante organizando o curso de (GNU/)Linux aos bixos (calouros, ingressantes).
Dei esse curso duas vezes, uma delas praticamente inteiro. Eu “fiz o curso acontecer”, garanti que ele fosse dado, e tornou-se, muito por minha causa, uma tradição. Várias outras coisas eu ressuscitei ou garanti a continuidade nas minhas atividades estudantis, entre elas a proximidade do CACo com os estudantes que representa, que continua até hoje e muito me orgulha. Posso dizer, ousadamente e sem escrúpulos, que o CACo é o melhor centro acadêmico da Unicamp hoje e eu tenho grande responsabilidade nisso.
E por que estou a “me gabar”? Na verdade, essas coisas passaram na minha mente enquanto contemplava as luzes esparsas do interior do Brasil pela janela do avião e eu as repito aqui. Percebi que me alegrava muito “deixar uma marca” no mundo, ou um sulco, como chamam os filhos do Padre. Não só isso, que essa, de certa forma, é minha vocação. Quero, e devo, marcar o mundo. Isso explica também meu desejo por ter 14 filhos. Filhos nada mais são que a maneira mais óbvia de deixar sua marca no mundo. São novos seres, com atos, amigos, amores, ações, que vêm da sua carne. São “seus”. Mas os filhos não bastam. Tenho de agir de forma a repetir o que fiz no CACo e no GPSL em todos os ambientes em que resolver atuar.
Volto um pouco. Também, durante minha vida estudantil, meti-me em diversas discussões sobre toda sorte de assuntos. Embora houvesse frutos, e o meu favorito é o de livrar algumas pessoas daquela ideia típica “quem discorda de mim é burro ou mau”, eles são muito menores do que os das minhas ações. É algo divertido, mas discussões de internet são, em geral, inócuas, quando não perdas de tempo. A imagem resume bem o que ocorre:

Daí tirei um propósito quaresmal: não me envolver em discussões na internet, ainda que seja algo mais amistoso, com gente com pensamento muito próximo do meu. Até a Páscoa, podem publicar o absurdo que for, eu não argumentarei. Vou conversar, brincar, e até topo discussões pessoalmente. Se alguém quiser saber o que acho de um assunto, direi. Mas, de novo, não argumentarei.
O sulco não é vocação apenas minha, creio eu, mas de todo homem. E há marcas boas e más que podem ser deixadas. Um homicídio certamente marca profundamente inúmeras vidas, mas não é algo desejável. Mas a ousadia que lhe dá origem é admirável, e talvez chave para entender o comum fetiche por criminosos, cuja expressão mais famosa é a Síndrome de Estocolmo.
Faço-me perguntas, e as sugiro a todos os meus dois leitores. Quais marcas vou deixar no mundo? Como farei isso? Como influenciarei positivamente os ambientes que frequento de maneira a alterá-los definitivamente, para melhor? Como separarei isso do desejo revolucionário de mudar por mudar? Tendo feita essa separação, minha ação pode ser da conservação: o que devo alterar e o que devo conservar? Que virtudes tenho de conquistar para conseguir concluir esses intentos?
São questões que meditarei, e quero-o diariamente, nos 40 e poucos dias que separam hoje da Páscoa.
Uma frutuosa quaresma!
Comments 1 Comment