Há algum tempo fizeram-me a pergunta relatada abaixo, no formspring. Hoje resolvi respondê-la, porque não era uma resposta de uma linha, como podem perceber. Posto-a aqui porque acho que é importante, e é a homenagem "do meu jeito" às mulheres. A pergunta está em negrito, o restante é minha resposta.
Um dos parceiros pode querer mais sexo do que o outro ou ser mais certinho e não gostar de nada diferente. Você não acha que o sexo depois do casamento pode levar, então, a problemas fatais de incompatibilidade sexual?
Problemas fatais de incompatibilidade sexual tem a viúva negra.
Mas vamos falar sério. Não, não pode. Dizem por aí que "sexo é que nem pizza, até quando é ruim, é bom". Discordo da parte da pizza mas, valendo o resto do adágio, não haverá problemas "fatais". Vamos discorrer com mais calma.
1) Desde quando um ser humano é carro pra se fazer test-drive? Acho essa objetificação da pessoa um crime. A sociedade moderna, tão aberta, tão progressista, faz com que as pesoas se tratem mais e mais como coisas, como mercadorias. A função do outro é me dar prazer, é ME dar bem estar. Puta egoísmo do cacete. Se a pessoa não me satisfaz sexualmente como se fosse uma pornstar, devolvo à loja onde a peguei e se torna impossível qualquer relacionamento duradouro com ela, não é assim? Por isso que a gente recebe tanto spam de enlarge your pinto. Para não virar um objeto devolvido, uma falha que passou inadvertidamente pelo "teste de qualidade".
2) Achar-me-iam um machista incorrigível se eu dissesse que não posso me casar com uma mulher sem saber se ela cozinha comida gostosa, não achariam? Mas testar se ela é "boa de cama" é a coisa mais natural do mundo, claro! Da mesma forma que dá para viver sobriamente (sem cair em contos de fadas) um casamento em que não se cozinhe bem, não tenha tanto trato com as crianças, um dos dois seja mais mimado com certas coisas, dá para encarar quando um dos dois não é "bom de cama". Aliás, eu acho que tudo isso se aprende com convívio, esforço e amor.
3) Se um não consegue aguentar o tesão quando o outro não quer, ou não consegue ceder aqui e ali (seja para conter um desejo diferente, seja para ceder ao desejo diferente do outro), como vão conseguir viver uma vida de casal saudável? O desquite virá -- esse sim fatalmente -- no primeiro quebra-pau, na primeira divergência importante. Que raio de casamento se quer assim? Que amor se pode dar sem estar disposto a ceder? Que família se funda num encontro de egoísmos?
Obrigado quem fez essa pergunta ridícula, porque me deu a chance de ridicularizar esse conceito idiota em que muita gente acredita -- e torna nós, a cada dia, menos humanos e mais bestas.
Que sejam vistas como seres humanos plenos, com virtudes, defeitos, anseios e anelos, e não como pedaços de carne -- fontes de prazer descartável. É o que eu desejo às mulheres nesse dia que foi dedicado a elas.
Comments 3 Comments