Depósito de tralhas

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    Resposta a meu amigo Fernando Aires

    Fernando Aires, grande amigo meu, acusou-me de “bancar o apologeta” no seu blogue. Vou tentar resumir a história.

    Ele publicou uma parábola de um mestre sufi, como segue:

    Na primeira história do livro I (“O Príncipe e a Criada”), Rumi conta sobre um príncipe que se enamora de uma criada, leva-a para sua e, quando ela adoece, busca de todas as formas sua melhora. Muitos médicos tentam, sem sucesso (e por contas próprias, sem contar com a orientação de Deus), curá-la, até que um anjo (em forma de médico) descobre que a causa da doença é o amor dela por outra pessoa – um ourives de uma terra distante. O príncipe manda buscar o amor de sua amada, e os casa.

    Escrevi um longo comentário, de como isso era uma rejeição do “amor possessivo”, ou “ascendente”, ou ainda “concupiscente”, ou simplesmente “ἔρος”, citando a Deus Caritas Est, e colocando como algumas das decorrências da rejeição do valor desse amor o puritanismo, o “sexo laxo” dos dias atuais, ou a burqa e a circuncisão feminina dos muçulmanos extremistas. Pelo twitter, ele me responde que o objetivo não era discutir qual religião era a certa (até aí, ok!), e continua:

    Daqui a pouco entra um Islamita a citar os extremos da sua religião. E todo o sentido de fazer algo que una em vez de separar se perde

    Aí há um grande problema. Porque só pode haver verdadeira união quando todos comungam da mesma verdade. Do contrário pode haver tolerância, mas não união.

    Dessa forma, o blogue só servirá à causa da união se disser a verdade em vez de “tentar diplomacias”. De agregar de diferentes “verdades” em busca de uma mesma espiritualidade (como ele pretende com a empreitada) não sairá nada. Pode haver diferentes pontos de vista sobre um mesmo fato, ou maneiras distintas de contar a mesma história, ou postulações diferentes da mesma realidade transcendente. Vamos bem. Mas quando há discrepância (muitas vezes frontal) isso é inconciliável.

    Podemos entender o paraíso do Islã com suas 69 virgens como uma alegoria do prazer contido na felicidade eterna que o Cristianismo crê. Podemos entender Shiva e Visnu como metáforas da sociedade humana — e eu as uso com frequência — e Brahma como o Deus único. Mas há questões inconciliáveis.

    Um muçulmano declara que o “Verbo Divino” se revelou no Corão. O Corão é o “Verbo feito Livro”, em uma analogia ao cristianismo. Para os Cristãos, a Revelação do “Verbo Divino” é a pessoa de Jesus Cristo — quem, para os islâmicos, é apenas um profeta. Isso é inconciliável. Não dá para alcançar uma união com essa radical diferença. O que não implica que não possa existir tolerância ou convivência pacífica.

    No mais, se o que ele busca é um cerne transcendente semelhante, boa busca. Recomendo as leituras de René Guenon e Fritjof Schuon, cujas obras nunca li, mas sei que tratam exatamente disso.

    O erro existe. Existe verdade e existe erro. A própria oração de São Francisco, que tanto lhe agrada, apela: “onde houver erro, que eu leve a verdade”. Ignorar isso é furtar-se a fazer o bem ao seu semelhante, é deixar de amar.

    E amar, ainda que com chicotadas ou palavras duras (como fez o Amor feito carne), é para mim — e para todos os cristãos — o maior mandamento.

    • 9 June 2010
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