Depósito de tralhas

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    A Universidade pública paga (e a outra proposta de Paulo Skaf)

    Já declaro aqui meu voto para governador de São Paulo: o picolé de Chuchu, Geraldo Alckmin.

    Contudo, o “socialista” Paulo Skaf trouxe um debate muito interessante com duas propostas polêmicas: cobrar mensalidades nas universidades públicas e abater do IPVA os gastos com pedágios.

    A primeira eu sou completamente a favor, a segunda eu sou completamente contra.

    O que é a Universidade pública no Brasil? Vou falar de alguns aspectos que vejo nas universidades paulistas, que são as que conheço melhor.

    Pesquisa

    É um local em que há pesquisa de excelência, ao certo, mas ainda aquém de padrões internacionais. Há muita boa pesquisa mas — ainda mais — macaqueação de pesquisas estrangeiras e jogo da lógica das publicações. Isso funciona assim: você descobre algo mais ou menos significante, escreve um artigo, e manda para uma revista ou congresso. Depois, descobre mais uma coisinha, e atualiza o artigo para a próxima conferência ou revista. Publicar é o fim, não a ciência. Isso não acontece só no Brasil, é claro, mas essa lógica é patentíssima e grassa nas universidades.

    Ensino

    O ensino não é lá maravilhas não, muitos professores ruins — que às vezes, mas só às vezes, são excelentes pesquisadores — sem didática, sem interesse pela docência, considerando aquilo um “mal necessário” (com essas palavras). Mas os alunos, selecionados em vestibulares rigorosos, costumam garantir o bom nível dos cursos, e uma formação diferenciada. Eu sei quanto o selo “Unicamp” pesa quando eu busco empregos — e, aliás, essa é a principal razão pela qual a sociedade sustenta a Universidade politicamente. É na esperança de seus filhos as cursarem e terem um “futuro garantido”. Parecido com o emprego público, mas um pouco mais honesto, porque dá espaço ao desafio e à prova da capacidade de cada um.

    Gente Universitária

    Apesar de exceções — maravilhosas, em geral — a Universidade é local de ricos e remediados. Sabe o estereótipo de playboy? Tem de monte. Mas cada um com uma máscara. Em alguns lugares é o clássico: o bombadinho de carrão que só quer saber de beber e festas. Em outros é o “hippie do dinheiro alheio”, o cara que não faz nada da vida — às vezes, nem tomar banho — e tem dinheiro dos pais (ou do Estado…) para isso. Às vezes é o revoltado comunista que não largaria o dinheiro do papai por nada, mas fica berrando pela socialização das terras, pelo fim da expropriação da mais-valia alheia ou — em alguns casos — pelo salário mínimo de R$2000,00 reais, afinal, é um absurdo que os pobres, coitadinhos, não tenham sequer 10% da sua renda familiar. Tudo isso dentro de um consumo de drogas ilícitas que é “só” 20 vezes maior que o da média da população e um consumo completamente irresponsável de álcool.

    Tem também os que estudam e se dedicam, que são ridicularizados por sua turma, ainda mais se os chamam à consciência quando afirmam — corretamente — que levam a Universidade a sério. E, claro, um sem número de medíocres — o grupo no qual eu me encontrava quando lá — que, sem levar tanto a sério como os últimos, mas com o peso na consciência do fardo que representam, ou pressa de se formar e ganhar dinheiro, ou de entrar numa pós e fazer “só o que quer”, tentam fazer um uso melhorzinho da Universidade. Felizmente, são também muitos os medíocres, quiçá formem a maioria.

    Isso é um retrato da graduação. A pós-graduação é um pouco melhor.

    Dado esse retrato, qualquer discurso de “não podemos cobrar pela Universidade pública” que se baseie na formação da graduação é, na melhor das hipóteses, ignorante. Em geral é hipócrita mesmo. Há uma quantidade não-desprezível de pessoas que precisam de ajuda para se manter — recebem bolsas, ou moradia, para permitir seus estudos — e, cobradas mensalidades, esse número aumentaria, é claro. Mas da mesma forma que há seleção para bolsas auxílio, pode haver uma seleção para bolsas de gratuidade (por critérios sociais com garantias meritocráticas mínimas e justas).

    A Universidade paulista é paga com o dinheiro do ICMS, um imposto que incide sobre todos (e, proporcionalmente, mais sobre pobres, é um imposto “regressivo”, praticamente). Dessa forma, uma conformação social em que as classes C, D e E correspondem à maioria acachapante paga (desproporcionalmente nos mais pobres) para os estudos (nem sempre levados a sério) de uma conformação social cuja maioria é das classes A, B e C. Se existe alguma coisa que eu consigo chamar de “injustiça social”, isso é a Universidade gratuita.

    Em tempo, eu não tenho problemas com o fato de que as universidades de excelência sejam preenchidas, em sua maioria, pelos mais ricos. A Universidade não serve a fazer “justiça social”, mas a produzir uma elite intelectual (graduação) e conhecimento científico (pós-graduação). É triste que não se esteja sondando por talentos melhores nas camadas pais pobres, mas isso é um problema muito mais amplo.

    Como contraponto à cobrança de mensalidade, concedo que a gratuidade é justamente o que torna a Universidade pública atraente, a sua isca para ter os melhores alunos. Com a cobrança, muitos podem preferir estudar em Universidades particulares razoáveis, em que não terão os custos de morar em outra cidade. Elas acabariam se tornando muito “locais”, perdendo os talentos do resto do estado ou do país. Food for thought

    Deixe seus comentários a respeito aí embaixo! Podemos fazer uma boa discussão :)

    Vamos adiante. A outra proposta é terrível. O grande lance dos pedágios é que só são pagos por quem utiliza a rodovia. Quem não viaja, não paga. Uma família que passe o fim-de-semana em São Paulo não paga pela outra que resolve descer a serra e entupir a Baixada Santista. No Maranhão, quem toma Guaraná Jesus, não deveria pagar pela logística do Antarctica.

    Quando você propõe debitar do IPVA o gasto com pedágios, você inverte essa lógica. Quem não sai da cidade, paga o mesmo IPVA de quem viaja, porque abate nos impostos o preço do pedágio. Isso também é nocivo porque, de certa forma e indiretamente, o governo está pagando pela manutenção das rodovias, que é precisamente o que a concessão pedagiada tenta evitar. Por fim, eu concordo que, por causa dos pedágios altos, diminua-se o IPVA. De todos. Ao considerar o modelo paulista de concessão, que são pedágios caros nas principais para permitir a manutenção das vicinais (o que, embora choque os liberais mais extremos, não me parece um negócio ruim), o IPVA serve apenas à manutenção das vias municipais e, portanto, não precisa ter um valor tão alto.

    Dá uma boa conversa isso tudo. Pode chegar de voadora nos comentários abaixo!

    • 28 June 2010
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    Comments 15 Comments

    Jun 28, 2010
    Mahayana said...
    - sobre a pesquisa – a princípio, o fim é sim a pesquisa. A publicação em congresso, que vc vê como fim, eu vejo como excelente oportunidade de fazer contatos e trocar experiências com quem faz pesquisa na mesma área que você. Se há busca por uma produção exagerada de trabalhos “marromeno” iguais, é devido à pressão da Capes/CNPq/Fapesp em medir a produção acadêmica dos docentes. Isso estava entre as pautas de uma das últimas greves, e o pessoal da meritocracia, claro, acha que faz todo sentido medir a produção (e a excelência) acadêmica desse modo.

    Ensino – tive professores excelentes ao longo do meu curso. Alguns realmente não tinham didática, mas se esforçavam muito para ajudar os alunos. Acho que vc está falando da exceção como se fosse a regra Consigo pensar em apenas uma profa que era de fato picareta, mas o PED dela era maravilhoso. E aí eu acho que seria bom termos uma reforma. Acho que os alunos de doutorado deveriam ter um papel mais ativo. Eu sou cagona e morro de medo de dar aula pra graduação, mas sei que isso seria muito, muito, mas MUITO bom para a minha formação como pesquisadora ou professora. Infelizmente, as bolsas de pós-graduação só se preocupam com a pesquisa, e esquece que esses pesquisadores serão também docentes. É só ver a Fapesp, que além de dar o absurdo de apenas 3 anos para se concluir um doutorado, tem todos os procedimentos do mundo para impedir que seus bolsistas assumam aulas. Para mim, o ensino melhoraria um pouco se os alunos de doutorado – sempre com a supervisão MUITO PRÓXIMA do orientador – pudessem assumir disciplinas (e receber por isso como complemento da bolsa). Claro, não basta apenas aprovar isso. A Capes/CNPq/Fapesp teriam que rever o tipo de profissional que querem formar e aumentar o período de vigência dessa bolsa, pq assumir uma turma toma tempo pra cacete, principalmente qdo vc não sabe dar aula direito.

    Estilo de vida – bem, pessoa ter estilo de vida X ou Y não tem nada a ver com a minha vida. Quer ser playboy? Seja. Quer ser hippie de boutique? Seja. Se vc falar que eles causam gastos pq não saem nunca da universidade, digo que 1) só isso não justifica pagamento de mensalidades, pois há outras maneiras de se dar conta da questão (jubilamento?); 2) acho que essa parcela que não se forma nunca deve corresponder a parcelas ínfimas da universidade. Pelo menos das turmas que conheço, qse todo mundo se formou em 4 ou 5 anos.

    Além disso, tenho pé atrás com o que se considera “renda mínima para gratuidade”, ou mesmo para bolsas. Cito o exemplo do meu amigo, cuja mãe ganhava 1.200 reais e tinha 2 filhos, e não conseguiu NENHUMA bolsa na USP. Na Unicamp, a coisa se repete. Eu contei com ajuda de minhas tias para conseguir me formar, meu pai estava desempregado há anos e com uma renda baixíssima, e mesmo assim só consegui um auxílio transporte que não pagava metade do meu aluguel. A Universidade parece também ignorar que manter um filho em outra cidade é caro. Se pensarmos em Barão, quem é herói passa o mês com uns 700 reais, e as bolsas trabalho não passam de 400. Vamos ter bolsa de gratuidade ou bolsas-auxílio? Adianta fazer uma sem fazer a outra? A criação das primeiras não traria um enfraquecimento maior da segunda? No mundo ideal, não. Mas, né, no mundo ideal, a renda seria distribuída igualmente, todos teriam o que comer e, vamos ao meu último ponto, o ensino universitário não seria talvez uma das pouquíssimas portas de ascensão social.

    E aí não temos papo, já que vc diz não ver problemas na Universidade servir uma elite. Eu vejo, já que o ensino de base é precário. Se um cara terminasse o EM com perspectivas de emprego que assegurassem o sustento de sua família (e não estou falando só de sobrevivência), a discussão de Universidade Pública paga seria outro. Quem sabe daqui umas décadas... Do modo como estamos, não concordo. A Universidade não serviria à criação de uma elite, mas apenas à manutenção dela.

    Jun 28, 2010
    Mahayana said...
    Ah, e sobre o IPVA: quer ter carro? Pague caro por isso. Eu pago. Carro é privilégio. Gostaria muito mais que o sr Skaf Se preocupasse em usar os tais descontos do pedágio para investir em transporte público (e acabar com esses cartéis dos ônibus intermunicipais). Mas, enfim, esse é outro assunto, e eu tenho que estudar pra fazer jus à minha bolsa.
    Jun 28, 2010
    mekaru said...
    Meus dois centavos:

    - Gosto da ideia de haver um pagamento (nem que seja simbólico) pela utilização da universidade pública, nem que fosse só para ajudar a diminuir as despesas. A gratuidade traz N problemas, muitos dos quais você mesmo citou (acho que o mais grave é a associação direta a uma vida universitária que serve como desculpa para um hedonismo de proporções medonhas); o fato de simplesmente se estar pagando já evita que se cometa grande parte dos exageros que a galera faz (i.e. obriga a pessoa a pesar se vale a pena continuar pagando para levar a vida universitária tendo como foco principal as festas e tudo associado a elas, sendo que ela pode fazer isso tudo sem estar na universidade e sem estar pagando por ela) e acaba sendo só dinheiro público indo pro ralo, fora que a ideia de uma fonte adicional de arrecadação é bem atraente, pelo menos em um primeiro olhar. A princípio, essa proposta parece legal até.

    Tem um porém: acho que cobrar mensalidade na atual maneira que a universidade encontra-se estruturada é um tremendo problema, e por isso sou contra a aplicação do projeto da maneira que elas se encontram atualmente.

    Há pouca fiscalização de como o dinheiro é investido atualmente na universidade, bem como a maneira pela qual a gente vê ele na universidade (estou olhando aqui especialmente para a produtividade de professores picaretas e certos funcionários malandros). Estabelecer o pagamento atualmente é o maior dos tiros no pé que um governo pode dar: você tem uma estrutura educacional carecendo de reorganizações internas para deixar de ser o sorvedouro de recursos/ninho de pequenas e médias corrupções que é, e ainda coloca a necessidade de pagamento para usufruir dessa estrutura meio precária? Desse jeito, apenas adicionou-se um problema ao bolo: agora, há mais uma fonte de recursos cujo destino é bem incerto no labirinto monetário que é a universidade.

    Ou seja: pelo menos por enquanto, sou contra essa proposta do Skaf (que pratica um socialismo bem caduco com essas propostas). Sem uma reforma pesada na univ. pública como a conhecemos hoje, fazer isso é jogar mais lenha na fogueira do problema da falta de fiscalização dos recursos em todos os níveis do ensino superior estatal.

    Essa argumentação toda, é claro, observando somente a universidade, sem contar com todos os outros elementos que a envolvem (o que simplifica um pouco a discussão, mas não tou com muita cabeça pra aprofundá-la por enquanto).

    - Sobre o pedágio/IPVA: não tenho muita propriedade pra falar do assunto, tendo em mente que só conheço direito os preços abusivos dos pedágios e não conheço muito do IPVA. Prefiro não me pronunciar pra além disso.

    Jun 29, 2010
    Luís Guilherme Fernandes Pereira said...
    Valeu pelos comentários, @mekaru e @mahagod, deu pra formar um "bolo" bem legal pra pensar em cima :)
    Jun 29, 2010
    marcelo reis said...
    Hanson, vou falar primeiro sobre o IPVA para me obrigar a falar sobre algo que não me envolva tão pessoalmente (afinal não tenho carro e nem carteira de motorista): esta proposta do Skaf é o tipo de emenda pior que o soneto. Os pedágios já estão num limite de tolerabilidade por parte do povo. Quando você pensa em que privatização desagradou a galera, não vai muito pela linha da Telefonia (!), como acreditam alguns: todo mundo sabe que telefone era um lixo antes de privatizar. Agora o cara vem com essa de abater o pedágio, daí a pouco sobem os pedágios, afinal você abate depois do IPVA, e de novo o Estado pagando para empresas sem condições de prosperar, fazendo crescer a bolha. (O negócio de estradas de rodagem começa a parecer inviável no Brasil, com toda essa caminhoneira e bebedeira.) Sinistra essa proposta. Nessa sua conta do uso do IPVA, faltou talvez a parte clássica, quando se fala em imposto no Brasil, a saber: o que é desviado.
    Agora, universidade pública paga: sou contrário também. Isso vai soar bizarro, mas sou favorável a uma maior elitização da universidade. Depois de uma graduação em meio a muito gente que não toma banho e aparece na biblioteca pela primeira no quarto ano (quando vai chamar o amigo pra jogar futebol), acho que muito dinheiro está rolando para nada. Há cursos na universidade pública com excesso de vagas, meu curso de graduação é um exemplo: você não tem onde enfiar 150 "cientistas" sociais formados por ano, pelo menos em funções que exigem o preparo de uma universidade pública. Resultado: mais da metade vira professor, que poderia ser muito bem formado em uma particular, ainda que fosse com auxílio do ProUni.
    Muita política populista foi feita com as universidades públicas, nesse ponto o Lula acertou (sem querer, imagino) e começou a fazer populismo com as particulares. Creio que um grupo mais reduzido de estudantes poderia de fato cortar alguns excessos, tem muita gente que já percebe que não vai além da graduação (e mesmo aí termina mal e porcamente), desanda no meio do curso. É a maioria medíocre à qual você se refere. Obviamente que sua modéstia é tola, você participava da minoria. Quantos lá no IC/FEEC precisaram de fato da estrutura da Unicamp? (Pense no tripé e quantos fizeram pesquisa ou extensão?)
    Teoricamente a formação universitária pública visa o retorno à própria sociedade em termos de pesquisa e extensão, e portanto nada mais justo do que a gratuidade, e no caso da pós, a bolsa de pesquisa. (Mesmo na graduação, sou favorável ao auxílio-moradia universal, sem seleção; isso só seria possível, claro, enxugando o quadro de alunos. Como alguém comentou acima, a seleção das bolsas-auxílio obedece a critérios misteriosos, e fere flagrantemente a isonomia perante a lei).
    Quanto aos grupos que ocupam a universidade, infelizmente, de fato, somos nós das classes média e alta, mas a solução para a distorção dos impostos é anterior. Não acho que o ICMS deva sustentar a universidade, a previsão orçamentária devia vir do próprio imposto de renda, de um imposto sobre fortunas ou -- melhor ainda -- de um imposto sobre ensino fundamental e médio particular. (Quem muito provavelmente fará uso da universidade paga por ela antecipadamente; quem superar os obstáculos recebe um abono como prêmio: é a bolsa-gratuidade antecipada, também.)
    Acho que por enquanto é isso, vou voltar a trabalhar e depois vejo aqui o que deu...
    Jun 29, 2010
    marcelo reis said...
    (Trabalho exigindo pausa, gargalo criativo.) Em tempo: há um artigo recente do reitor da USP (Rodas) intitulado "Mecenato e universidade", no qual aparecem opções bem mais interessantes para o financiamento da universidade do que a cobrança de mensalidades: as PPPs e a contribuição de mecenas. Esta última me agrada bastante, pelo sucesso que obteve em certos países, como nos EUA. Mas enquanto as universidades brasileiras não forem enxergadas como _alma mater_, não sei se haverá muitos mecenas. Em tempo 2: http://www.stu.org.br/?q=node/709 - segundo o próprio STU, 80,16% do orçamento da Unicamp é comprometido com folha de pagamento. Pelo visto é preciso enxurgar não apenas o quadro discente...
    Jun 29, 2010
    Luís Guilherme Fernandes Pereira said...
    <markdown> Marcelo, Valeu pelos comentários. Nada como conversar com gente inteligente, que traz ideias e não chavões :). Quanto ao Mecenato, li um artigo que mostrava que começou um trabalho assim na Faculdade do Largo de São Francisco -- que é, felizmente, um lugar em que as pessoas entendem o conceito de *alma mater* -- e (advinhe!) encontrou resistência por parte dos funcionários e do movimento estudantil, porque se davam às salas de aula os nomes dos *alumni* que ajudaram a escola financeiramente. É outro debate interessante, por que homenagearemos com o nome da sala o Fulano das Couves que nos ajudou financeiramente em vez de, sei lá, Bruno Tolentino, poeta morto recentemente? E o que acontece quando se descobre que o Zé Beltrano, que nos deu dinheiro, era um cafajeste sem limites e, agora, está o nome dele numa placa na frente da sala? Por outro lado, botar o nome na porta de uma sala do Largo de São Francisco é um incentivo para que certos homens, doutra forma medíocres desconhecidos, usem seu dinheiro para se imortalizar mas fazendo, com isso, uma ação meritória e boa à sociedade. </markdown> 2010/6/29
    Jun 29, 2010
    R. B. Canonico said...
    Bem, como seguirei carreira acadêmica, devo fazer alguns comentários.

    De cara gostaria de concordar com vc que as coisas são bem melhores na pós graduação. Vc cita um pouco, mas eu digo que são bem melhores. A maior parte dos professores leva a pós muito a sério, ao contrário da graduação, “um mal necessário” para o pesquisador (?).

    Muito me admira um pesquisador que não queira formar algum bom pesquisador.

    Eu tenho muito vontade de dar aulas, de ensinar. Quero logo entrar na sala de aula, e sei que encontrarei uns 70% de alunos desmotivados – talvez mais… mas eu adoro ensinar. Espero conseguir passar em algum concurso ainda no decorrer do doutorado para começar a dar aulas antes de defender minha tese – que, aliás, nem vai demorar um pouquinho para começar, olha eu sonhando aqui hehehe.

    Os programas strictu senso não preparam professores. Preparam, no máximo, pesquisadores. E a culpa de que os pesquisadores coloquem publicações como fim é, a meu ver, da CAPES. Os pesquisadores precisam publicar muito, e aí a cada pequeno incremento na pesquisa já publicam. O duro é, também, os periódicos que aceitam essas pequeníssimas contribuições. O fato é, também, que se o pesquisador não ‘apertar o passo’ nas publicações, corre riscos na carreira, perde sua bolsa de produtividade, por exemplo. E os programas de pos graduação são muito pressionados para publicarem. E aí vemos essa barra sendo forçado. É triste, mas é real.

    Quanto Às aulas ridículas, bem, os docentes não são ensinados a lecionarem, tampouco querem aprender. A maioria das aulas que eu tive foram ridiculas, e o estagio de docencia exigido pela CAPES dos estudantes bolsistas também é ridículo. Hoje, esse ciclo vicioso é rompido apenas por algum docente com talento e boa vontade. Pois ele não é exigido por isso.

    Ele é exigido apenas para publicar.

    Enfim, há mais problemas, mas gostaria de focar neste aspecto com o qual estou tendo muito contato.

    Jun 30, 2010
    Thiago Serra said...
    Quando eu fiz intercâmbio em Portugal e conversei com os europeus do Sul (com uma cultura e política mais parecida com a nossa), eles ficavam meio pasmos com essa história que a gente não pagava 1 centavo pra estudar aqui. Sequer simbólico, como acontece por lá.

    É um fato consumado pra quem viveu uma graduação na Unicamp ou na USP que curso disputado não é "lugar de pobre". Uma boa parte termina a faculdade com um carro que não trabalhou para ter, muitos vão fazer carreira com um diploma carimbado na testa (o diploma na testa, mas nada técnico na cabeça) e outros partem para ocupações que nada tem a ver com a formação que receberam de graça, como consultorias das mais variadas, bancos e funcionalismo público (claro que alguns seguem nesses setores com base em sua formação).

    Se é pra toda essa gente virar fiscal, engravatado mandando nos outros e coisas do tipo, melhor mesmo era criarmos uma nova graduação em Engenharia Administrativa com ênfase em Migué (afinal, boa parte do mercado quer um engenheiro porque a palavra é legal e o curso exige que ele saiba bem fazer contas, mas não quer alguém pra praticar engenharia), e deixar os cursos específicos pra quem quer ter aquela formação para contribuir com o desenvolvimento da sociedade.

    Tenho receio dessa medida de cobrança de mensalidades porque, se implementada, vai ser como qualquer outra medida é implementada aqui: de forma errada, atropelada e repleta de efeitos colaterais que não deveriam ocorrer. Então, melhor deixar como está, mas com a condição de se criar vergonha na cara para investir na formação de base.

    Isso tudo é muito cultural. Vamos lá para a Europa para exemplificar a situação: de um lado (Sul), você tem cursos de mestrado, por exemplo, na faixa de mil euros ao mês, praticamente gratuitos e acessíveis a toda a população; de outro (Norte), cursos orçados em 20 mil ao ano, com advertências de que o candidato deve se planejar financeiramente se quer concluir o curso. Qual desses dois modelos tem contribuído mais para o progresso científico e gerado mais riqueza ao país? O segundo! Um modelo onde a assistência não é institucionalizada, mas muitas iniciativas particulares de suporte a bons alunos existem, e cada um estuda aquilo que acha importante porque está realmente pagando pelo conhecimento e não tolerando umas provas de cálculo sem quase nenhum custo para receber um diploma de engenheiro e virar mais um engravatado genérico.

    De experiência própria, eu passei a dar mais importância à frequência em aula quando comecei a trabalhar, tinha metas e responsabilidades e... pagava 20 reais para ir e 20 reais para voltar entre Campinas e São Paulo para assisitir apenas uma aula à noite. É simbólica, mas a sensação de que as coisas custam, que você não é um vadio à toa e que o tempo passa fazem você ser mais responsável.
    Eu escolhi trabalhar numa área em que aprofundamento acadêmico acaba sendo requisito para sucesso profissional. Eu curto o que faço, mas tive que recusar a idéia de fazer mestrado com bolsa por dois motivos: (1) queria experiência prática e não teria isso isolado na universidade; (2) queria ser remunerado pela formação que tinha, e não por caridade com uma bolsa insuficiente.
    Custeei minha ida a um congresso em Goiânia pra apresentar minha iniciação científica, acabei de pagar do bolso as passagens para apresentar meu trabalho de mestrado em Buenos Aires e provavelmente terei gastos maiores pela frente. Infelizmente, como aluno de mestrado, sequer poderia pedir apoio para uma viagem ao exterior com verba de fomento. Mas não quis me limitar por isso.

    Concordo com o Marcelo sobre o excesso de vagas oferecidas em muitos cursos. Vestibular deveria ser por nota e não por posição: se ninguém tem capacidade pra ser aprovado, não tem turma (algo que poderia ocorrer em carreiras que a nota de corte gira em torno de 50%); se existem mais candidatos aptos do que vagas, talvez seja a hora de erguer uns prédios com mais salas, bibliotecas e laboratórios (faltam médicos e sobram candidatos que "quase" conseguiram nos vestibulares, desperdiçando 2,3,4,5,6,7 anos pra conseguirem entrar... anos que poderiam ter sido exercidos profissionalmente). E concordo também com o Hanson: precisamos de massa crítica, de produção de elite e não de trabalhinhos safados inferiores a trabalhos de disciplina sendo apresentados em congressos.

    Jun 30, 2010
    Thiago Serra said...
    Correção: no contraste entre Sul e Norte, ambos os valores são anuais. Um deles aparecem mensal e poderia desmerecer a comparação feita.
    Jun 30, 2010
    Luís Guilherme Fernandes Pereira said...
    Comentaram deste artigo, então eu o colo aqui:

    Mecenato e universidade

    Folha de S. Paulo

    Ou universidades públicas paulistas se conformam em obsolescer placidamente ou devem procurar outras fontes de financiamento

    Em um mundo em constante evolução, para que a universidade, pública ou privada, se mantenha atualizada são necessários orçamentos cada vez maiores.

    Tal fenômeno verifica-se tanto no exterior quanto no Brasil, não sendo por acaso que as universidades mais importantes do mundo sejam também as campeãs na captação de recursos.

    A universidade pública brasileira absorve cerca de 25% dos universitários brasileiros, cursando os demais instituições privadas.

    As universidades públicas, por serem, geralmente, as mais tradicionais, recrutam os estudantes mais preparados.

    Contudo, se já existiam algumas universidades particulares de renome, nota-se hoje grande ebulição nas instituições privadas, mormente em razão do ingresso de grandes capitais, inclusive estrangeiros, no setor, o que tornará mais acirrada a disputa pelos melhores alunos.

    Isso é bastante positivo, uma vez que contribui para a melhora do nível do ensino superior brasileiro.

    Um dos principais problemas das universidades públicas reside exatamente na dificuldade em aumentar seu orçamento na mesma proporção das suas crescentes necessidades.

    Financiar o ensino superior, infelizmente, não pode ser prioridade absoluta do poder público, pois há outras necessidades prementes, como a educação fundamental e média, a saúde, a segurança, a infraestrutura etc.

    Se até pouco tempo atrás bastavam quatro paredes, lousa, giz, mesas e cadeiras, bibliotecas e laboratórios, atualmente são necessárias salas de aula dotadas de modernos meios eletrônicos, bibliotecas digitais e laboratórios de ponta, todos sujeitos a rápida obsolescência.

    Como estudo de caso, tomemos as três universidades públicas paulistas -USP, Unicamp e Unesp-, cujo orçamento é de cerca de 10% do ICMS recolhido no Estado (quase R$ 7 bilhões em 2009).

    Desse montante, 85% são consumidos com a folha de pagamento, restando apenas 15% para todos os outros gastos: construções, compra de materiais, manutenções e pesquisa. Se não fossem as instituições de fomento à pesquisa, como a Fapesp e o CNPQ, praticamente não haveria como financiar a pesquisa nessas universidades.

    Nesse cenário, impõe-se um dilema: ou as universidades públicas paulistas se conformam em obsolescer placidamente ou devem procurar outras fontes de financiamento. Daí a importância da parceria público-privada, bem como das doações de mecenas, antigos alunos ou não.

    Embora tal aconteça com grande intensidade em outros quadrantes do globo, entre nós não somente inexiste esse costume como ele representa verdadeiro tabu, suficiente para condenar seus próceres às fogueiras da inquisição.

    É capcioso o argumento de que a entrada de recursos privados nas universidades públicas compromete a sua autonomia. Trata-se tão somente de tentar manter sua liderança como centros de excelência.

    Para tanto, urge que a questão seja pensada sem ideologias, que regras claras sejam delineadas e que seja feito um grande trabalho de conscientização, no sentido de que os antigos alunos de universidades públicas possuem um débito para com elas e, consequentemente, para com a sociedade.

    Motivá-los a retribuir a formação que receberam, na medida de suas possibilidades, é salutar e necessário. O modo, emocional e rocambolesco, como foi conduzida a experiência relativa ao projeto de modernização da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco certamente não contribuiu para a referida conscientização.

    João Grandino Rodas é reitor da Universidade de São Paulo

    Jul 02, 2010
    marcelo reis said...
    Saiu hoje na FSP uma resposta do Ricardo Antunes (aquele da sociologia do trabalho e do PSOL) para o artigo do João Rodas. O texto de Antunes é cheio de "não raro", "provavelmente", "como seria", etc. Frágil demais, ideológico no pior sentido. Destaco em especial o trecho (sempre egoístas esses ifchianos) em que fala do curso de Ciências Sociais, essa panacéia que afinal deve salvar o Brasil (e ao redor do qual deve girar toda a Universidade - se não funciona pra Ciências Sociais, não funciona pra ninguém!): "Como seria termos um curso de ciências sociais mantido por uma grande montadora? Ou, ainda, discutirmos as complexas relações do direito do trabalho, sob o mesmo patrocínio?"

    Comentário sobre o trecho: será que ele nunca ouviu falar na Fundação Ford?

    Jul 02, 2010
    marcelo reis said...
    Estou só com o jornal impresso, mas parece que o artigo está disponível pra assinantes UOL.

    Sobre sua resposta à proposta do mecenato: sim, há o risco de começar a nomear coisas com nomes de cafajestes, mas esse risco existe mesmo sem o mecenato. Lembro que Armando Salles Oliveira não era lá um exemplo de dignidade e dá nome ao campus da USP; Zeferino Vaz nem se fale, um veterinário que mentia descaradamente e traiu vários colegas (como o Fausto Castilho, verdadeiro criador da Unicamp). O tapetão chama-se Rodovia Milton Tavares de Souza, que já foi reconhecido como um dos maiores torturadores do Brasil. Se não me engano São Paulo tem algumas avenidas e obras com nomes de parentes do Maluf...

    Enfim, esse risco existe de todo jeito, mas (1) sempre é possível renomear os prédios públicos e (2) os nomes acabam sendo irrelevantes para todo mundo, a não ser para quem tenta se imortalizar dessa forma. Afinal, alguém se importa muito em usar a demoníaca "sala Microsoft"? rs

    Sobre o que o Thiago disse, concordo em parte, discordo em parte, mas depois escrevo algo no meu blog (que está sendo reformulado).

    Jul 02, 2010
    Luís Guilherme Fernandes Pereira said...
    @marcelosreis, Quando escrever o comentário no blog, bota um trackback
    para ele aparecer aqui nos comentários :)

    Abraço!

    2010/7/2
    Jul 09, 2010
    Paulo said...
    Fico triste em ver uma boa parte de nossa juventude, com grande potencial para construir um grande país, mais preocupada em se adaptar ao sistema do que fazer algo realmente bem feito e gratificante:
    - tem muita gente mais preocupada em ter bolsa e garantir uma extensão da vida de estudante até os 30 anos do que realmente fazer pesquisa de qualidade e com efeito prático para o país;
    - tem muita gente mais preocupada em passar em concurso público para ganhar bem, trabalhar pouco e ter aposentadoria integral do que realmente disposta a melhorar o serviço público.
    Uma pena nossos governantes incentivarem isso. Hoje quem rala, busca crescer por mérito e luta na iniciativa privada parece um idiota diante de tantas oportunidades de se dar bem na moleza...mas enfim, mas cada qual com sua consciência. Ainda penso que os desafios é que realmente fazem dessa vida algo bonito e maravilhoso!

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