... this is not a blog!
Fui, sábado passado (na verdade, muitos atrás, mas este texto ficou engavetado), assistir a Amorzinho, um conto de Tchekhóv no Rio de Janeiro, em companhia de Deborah e Máslova, minhas amigas proparoxítonas.
Como em Madame Bovary, obra inclusive refereciada na peça, o amor romântico é desconstruído. Desconstruído através de uma protagonista, Olenka, que vive em função de seus amados. Suas vidas tornam-se a vida dela, seus desejos, interesses, assuntos, opiniões, tratos, estilos, trejeitos, os dela.
Seu primeiro marido é um dono de teatro. Ao desposá-lo, toda a sua vida gira em torno do teatro. Enviúva e, depois de breve luto, desposa um comerciante de madeiras. Do dia para a noite, torna-se uma especialista em madeiras: “sabe” tudo do ramo, das qualidades, dos fornecedores. E eis que chega, como inquilino, um veterinário militar, de casamento infeliz. Seu interesse desperta pelo tipo, e começa a largar, pouco a pouco, a madeiraria pela veterinária como ordem do dia. Enviúva novamente e já está prontamente opinando sobre as vacas, as zoonoses, o cuidado dos animais. Envolve-se com o veterinário casado, que a deixa, mandando-se para longínquo destacamento. Olenka, sem amado e sem assunto, torna-se abissalmente infeliz.
Volta o veterinário depois de muito tempo, acompanhado de esposa e filhos, novamente como inquilino. E Olenka agora apaixona-se pela criança. Não desgruda do pequeno e seu assunto são as disciplinas escolares, a cobrança dos professores, a educação do tempo: vive em função do jovem agregado. Mas é incapaz de auxiliá-lo na sua verdadeira tristeza: apanha do pai.
A peça ficou muito bem montada, com atuações digníssimas, contando apenas com três atores. Os diálogos foram bem feitos e a toada é tranquila, levemente cômica, até o final aterrador como, pelo que alguém me disse, ser o estilo de um filme específico de Bergman, ou todos excetuando um (sim, nunca vi nada de Bergman, shame on me). Saímos do teatro cabisbaixos.
A montagem é bastante fiel ao conto que lhe inspirou, uma pérola da sensacional literatura russa. A época, brevemente após o romantismo, é marcada por uma saudável verve antirromântica (a que feiúras nos submete a reforma ortográfica!). Tchekóv não foge à regra e, em vez de paixões avassaladoras, ou vidas simples e tranquilas, retrata a mediocridade. A mesma mediocridade de um Raskólnikov antes do assassínio, ou de um Bentinho que vive em função da grande questão filosófica musicada pelos Mamonas Assassinas: “ser corno ou não ser?”.
Sob a aparência de um amor profundo de Olenka esconde-se uma vida inerte e sem sentido. Olenka não sabe amar, porque não sabe sequer se afirmar como indivíduo. Ela não é ela, mas apenas um reflexo de seu amado da hora: marido, amante, menino. O amor é, de fato, uma negação de si no sentido em que o amante se nega para se doar ao amado, mas essa doação só pode ser feita por uma pessoa inteira, única, própria. Se não há o que negar, não existe abnegação.
Os autores cristãos são unânimes em afirmar que as virtudes sobrenaturais se constroem sobre as virtudes humanas. A Caridade, isto é, o Amor, é uma virtude sobrenatural e, dessarte, se apoia nas virtudes humanas, depende delas. E quais são as de Olenka? Não sabemos. Olenka não tem personalidade, mas apenas personas, máscaras que troca com toda a facilidade.
Nossa protagonista não é fria, como uma Madame Bovary, nem quente, como uma Julieta Capuleto. É morna. Não ama com a intensidade de Julieta, não trai com a paixão de Bovary. Repito: é morna, disforme, pastosa. É um símbolo da tibieza, que é a maior inimiga das verdadeiras virtudes. Olenka não tem Amor, mas apenas um amorzinho.
Faz algum tempo eu parei de ler o Reinaldo Azevedo, por diversos motivos. Eu até acho interessante algo do que ele escreve, tem alguns insights liberais, mas uma hora cansei. Os principais motivos são: ele escreve demais, e ficou 1789 demais e tucano demais pro meu gosto. Mas também parei de me interessar tanto pela política do dia, porque não interessa. O que os políticos fazem tem pouco efeito. Interessa-me mais o que acontece no mundo real.
Escreve ele hoje um libelo a favor do Voto Distrital. Dá uma ou outra dentro, mas a retrucada é óbvia, e ele nem toca no assunto: o voto distrital exclui as minorias (na verdade, ele até entregou o ouro para os críticos em outro artigo).
Explico: no sistema proporcional uma minoria esparsa se une e elege o seu candidato. Os pouquinhos de cada canto, juntos, fazem uma votação expressiva e botam o seu candidato pra dentro. No voto distrital, a minoria vai sempre ser sobrepujada pela maioria naquele distrito. Há diversas maneiras de contornar isso, mas não vem ao caso agora.
E qual deve ser a resposta? Como se deve rebater esse argumento contra o Voto Distrital? É simples:
Danem-se as minorias
O grande problema de hoje é o exato inverso: as minorias mandam na maioria. São os comunistas, o MST, os ecochatos, os sindicatos, os ruralistas, os mega-empresários, os crentes, os milicos. São essas minorias que dividem o poder e votam suas agendas, que raramente batem com a da maioria da população (até aqui o Reinaldo chega e concordamos inteiramente). Desrepresentar as minorias é ruim? Fazê-lo com a maioria é muito pior. Se é para ser assim, repito, danem-se as minorias.
Como disse no começo, pouco ligo para a política brasileira porque pouco ela tem a ver com o mundo real. No caso do Brasil, tornar o voto distrital vai tornar a política mais conforme à realidade, o que é um grande benefício. O brasileiro tem alma feudal. Faz muito mais sentido ele eleger um suserano (o deputado/vereador distrital) que um “representante” nos moldes liberais-democráticos.
Meu argumento é contrário ao do Reinaldo. Mas não dá para defender o Voto Distrital pela “radicalização da democracia” porque ele não faz isso (pelo menos da maneira como liberais tucanos como ele entendem a democracia). Ele exclui as minorias. Ou se aceita isso como “risco calculado” ou se vai contra ele, ou se faz algum patch nele para que se representem as minorias.
Eu não acredito em abaixo-assinados, mas também não me custa nada preencher o cadastro de spam, digo, formulário. Vai lá.
Em três palavras: isso é ridículo.
Fazer um dia do orgulho hétero é igualar tara com normalidade. Pronto, podem jogar tomates, ovos, e garrafas com a mensagem “HOMOFÓBICO” em mim.
Let me get this straight. Para mim, a marcha do orgulho gay é, sei lá, como a marcha do orgulho anoréxico. O pessoal se encontra na Paulista, come 3 migalhas de pão e uma azeitona, e fica olhando no espelho se achando gordo. É idiota, mas ainda é a afirmação de algo positivo: “somos anoréxicos e nos orgulhamos disso”.
Uma parada do orgulho hétero já não faz nenhum sentido. Seria, para manter a analogia, como a “parada dos não anoréxicos”. Que raios seria isso? O que se afirmaria? Nada! É até cruel com os anoréxicos dizer: “olha só, não padecemos do seu mal”, que é a única coisa que se poderia dizer num negócio assim.
Orgulhar-se do que você faz com a sua genitália (ou com suas pregas, em alguns casos) é completamente idiota. Quer se orgulhar da sua castidade? Nem isso é bom. Os heterossexuais, isto é, os normais (taque mais coisas em mim) só fazemos o que a natureza manda. É isso, ou decretar o fim da espécie. Já os homossexuais padecem de um problema: vivem de forma contrária à natureza e, como isso naturalmente causa estranhamento, acabam por sofrer mais ainda pela natural — reitero — rejeição social que sofrem. Nesse contexto inventam maneiras de se afirmar — mas escolhem a pior: afirmam-se não como seres humanos, mas como gays; defendem não os direitos dos homens que cometem erros, mas o direito do próprio erro —, entre elas a famosa parada.
Sim, os gays fazem propaganda de seu erro, mas muitos o fazem sinceramente. Eu os entendo perfeitamente porque, dos meus defeitos, acabo também fazendo propaganda de alguns. É um mecanismo de auto-defesa. Mas usar de suas mesmas técnicas é, como disse lá no começo, igualar erro e retidão.
A propaganda da retidão se faz com respeito a quem erra e padece (ou seja, não ficar jogando na cara “eu não sou igual a você”), com o exemplo da própria vida, com a amizade e conversa sincera. É isso, e não uma marcha de um bando de crente pra afirmar que se orgulham de não serem gays, que pode gerar mais decência na sociedade.
E se algum dia eu puxar a marcha dos preguiçosos me internem, antes que seja tarde.
Era minha primeira noite no Rio de Janeiro. Havia tomado umas no Mangue, outras no Sujinho. Ébrio não estava, mas estava um pouco alto, aquele estado quase etéreo quando bebemos a quantidade certa. Num prédio lindíssimo e malcuidado, subo as escadarias cobertas de um tapete escarlate macio. Meus olhos então viram a magnificência dos lustres, das paredes, do altar, do crucifixo, dos quadros, do púlpito de uma capela. Dentro da Universidade estatal. Uma capela que sempre está fechada. Naquele dia em que conheci a Cidade Maravilhosa, seja por acaso ou Graça, ela estava aberta. Genufleti. Admirei. Admirei um pouco mais. Genufleti novamente e saí.
Muito do meu amor pelo Rio vem de eu ter entrado na capela de São Pedro de Alcântara, no campus da UFRJ na Praia Vermelha, nesse primeiro dia.
Cinzas, entulho, é tudo que sobrou. O crucifixo e o altar, centenários, são cinzas. O lustre, areia. Relíquias de São Pedro pulverizaram-se na brisa da Urca. Poucas vezes pude contemplar a capela, e as poucas todas valeram a pena. Nunca mais. Não tenho esperanças de que o inepto governo brasileiro a restaurará antes de minha morte. Ainda que o faça, não será o mesmo. As obras serão réplicas. No futuro, quem entrar na capela a conhecerá tanto quanto eu conheci a Família Real Britânica no museu de Madame Tussaud.
Vive-se só uma vez, disse um amigo carioca na véspera do desastre. A nossa vida é mais frágil que uma construção. Vai-se. Os fins inexoráveis nos ensinam isso. Há pontos sem volta. Se, por um minuto que seja, esquecemos disso na vida, certamente desperdiçaremos esse tempo.
A dor da perda definitiva não tem par. Que São Pedro de Alcântara nos lembre disso diuturnamente, ainda que com lágrimas amargas.
Ideologia é uma ideia a qual se tenta adequar a realidade.
Demorei pra chegar a essa sentença, que é mais óbvia que não sei o quê. Perdoem-me a burrice e a reiteração do ululante.
Talvez pensemos que a ideologia é coisa de “gente das humanas”, o que é falso. Muito pelo contrário, a ideologia é a maneira como nós, engenheiros e cientistas, fomos treinados a pensar.
Quando fazemos laboratório de física, ficamos jogando bolinhas de uma rampa num papel carbono e fazendo medidas. Depois disso, fazemos esforços hercúleos para encontrar um valor de gravidade “aceitável”. Ou seja, fazemos de tudo para adequar a realidade (os dados reais medidos das bolinhas que tacamos) à ideia: as lei de Newton, o valor de gravidade esperado, etc.
Todo o nosso estudo das ciências naturais é feito com essa base: observamos a realidade não para aprender da realidade, mas para confirmar a teoria. Não que a teoria esteja errada — principalmente nos estudos básicos isso nunca é o caso —, mas a forma como agimos é ruim, e deforma nosso pensar (ó lá eu fazendo o que tanto condeno, qual seja, transformar verbo no infinitivo em substantivo). Vamos agir assim em todo problema que encontrarmos: temos uma teoria, vemos a realidade, e nosso trabalho intelectual será “encaixar”, ainda que a marretadas, a realidade na nossa teoria.
O primeiro problema é claro: qualquer cientista que pense assim nunca vai descobrir ciência nova. Nunca vai poder aprimorar uma teoria vigente ou, ainda menos, prová-la errada. O segundo problema é mais de fundo, e aí se refere às ciências humanas que, embora não sejam o nosso campo de estudo, permeiam nossa vida inteiramente.
Um marxista verá uma situação real e tentará descobrir quais são as classes em luta. Um liberal, por sua vez, tentará ver se há um respeito ou não por sua deusa Liberdade. Em geral, um homem ao ser confrontado com um comportamento, ou uma lei, dará seu julgamento segundo a adequação ou não disso aos seus princípios ideológicos. Vale para qualquer ideia social, é claro, marxismo e liberalismo são só exemplos. E isso é perigoso e ofensivo.
Perigoso porque se desliga o cerébro, para-se de pensar, cai-se num estado de preguiça, de letargia, muito difícil de sair. Ofensivo porque temos uma inteligência, e não é por acaso. Devemos usá-la em cada situação, concretamente.
A ideia a que tudo se adapta, “one ring to rule them all”, é uma coisa muito característica da modernidade — que na posmodernidade foi trocada pelo relativismo, o erro contrário, mas que também é uma ideologia — e todos nós estamos a ela sujeitos. Esse mesmo artigo surgiu quando, pensando num dado assunto, não me lembro mais qual, tentei entendê-lo sob categorias ideológicas. Eu me flagrei tentando adequar um acontecimento, ou uma proposta — já o disse: não me lembro mais —, a teorias nas quais eu acredito mancamente. Foi uma sensação dupla: a frustração de fazer tal besteira veio junto com a alegria de percebê-lo. Já fi-lo muito sem sequer perceber.
Fica aqui, então, o meu pedido: que examinemos a realidade sempre, que aprendamos dela, usando a nossa inteligência, sem a tentação de adaptá-la a uma ideia prévia. Às vezes ela se adapta — e isso é muito importante que se verifique mormente nas ciências naturais, mas também nas sociais —, às vezes não. Nesse caso, estudemos o problema em vez de fazer birra. Somos adultos. A ideologia infantiliza.
Mais um artigo do Professor Carlos Ramalhete
A Globeleza (é uma moça pelada pintada, não é isso? Já li algo a respeito, mas nunca vi) é o menor dos problemas.
Eu não assisto TV. Na verdade, eu nem tinha TV até que a patroa – aproveitando que eu tive que passar um ano longe de casa, estudando – fez um “golpe de estado” e comprou uma sem me consultar. Hoje tem aquele teatrinho de fantoches do capeta no meio da sala, tendo (para mim) como função básica me expulsar do recinto. Eu não suporto ficar num lugar em que haja uma TV ligada, pq a programação é feita para quem é viciado em TV e já não presta atenção nela. Para quem não tem o hábito, como eu, o som da TV é basicamente uma sucessão de tentativas bem sucedidas de atrair a atenção, e ficar no mesmo recinto é como ficar em um lugar em que alguém fique cutucando a gente o tempo todo, falando depressa e alternando entre sexo e dinheiro como assunto.
Mas, bobo apaixonado que sou, frequentemente ainda me pego na sala pelo tempo que eu aguente (10-15 minutos, em geral), lendo um livro, só para ficar mais perto da minha mulher. Como eu tenho que tirar os óculos para ler (miopia + vista cansada dá nisso), dificilmente eu consigo ver o que acontece na tela.
Mas dá para ter uma boa noção pelo som. O que eu vejo é basicamente uma campanha ininterrupta tentando convencer as pessoas de que o objetivo primordial da vida é ter prazer sexual, entremeada com apelos (muitas vezes sexualizados) ao consumo desenfreado. Isso é a programação da TV aberta, que é o que pega na antena paranóica daqui de casa. Em tempos de vacas mais gordas, minha mulher já teve uma dessas TVs por assinatura, e assistia basicamente a programas em que homossexuais ensinavam a fazer reformas na casa (ela invejava as paredes facilmente derrubáveis dos americanos, disso eu me lembro) e a seriados americanos.
Mas na TV aberta (não saberia dizer os canais), o que eu vejo que rola é: gente gritando e tentando enganar o próximo, apelos sexuais de todos os tipos, campanhas pró-sexo-como-objetivo-da-vida, anúncios de babulagens em trocentas prestações, gente fazendo maldades aos gritos, gente fazendo maldades pelas costas dos outros, etc.
Isso corresponde, aliás, exatamente ao que o Mander ( http://www.amazon.com/Arguments-Elimination-Television-Jerry-Mander/dp/068808... ) já dizia em 1978 (emprestei o livro, nunca me devolveram), levando o McLuhan às últimas consequências.
Em outras palavras: na TV, o meio é a mensagem. E a mensagem é de ódio, sensualidade desordenada e cobiça. É até possível fazer outros usos do meio (filmes, documentários), mas eles vão ser sempre menos “interessantes”, vão ser sempre algo que é assistido por um público extremamente minoritário, que assiste aquilo ao invés de “ver TV”.
A pulverização da TV (milhares de canais em potência, mais ainda com a crescente possibilidade de montar canais pessoais com assinaturas de youtube, etc.), decorrente da possibilidade que hoje todos têm de filmar algo e botar no ar (estamos aí fazendo uma vaquinha para entrar nisso, não é mesmo?), só faz com que sejam gerados mais canais minoritários. Mas o apelo do meio faz com que mesmo estes canais venham a ter uma audiência tanto maior quanto mais adequada ao meio seja a mensagem. Ou seja: para cada pessoa que queira assistir e assista com prazer um vídeo sobre a Missa, haverá centenas ou mesmo milhares que assistirão a um vídeo de uma moça rebolando de calcinha, de um sujeito caindo do skate, de um cachorro mordendo o traseiro do carteiro. Isso ocorre simplesmente pq o meio televisivo é muito mais propício a moças rebolando de calcinha que a carecas dissertando de uma poltrona.
A Globeleza nada mais é que uma moça rebolando de calcinha (no caso, pelo que eu sei, calcinha feita de tinta apenas, mas dá na mesma); é uma tentativa de competir com as muitíssimas moças que se filmam rebolando de calcinha e jogam a fita na rede, e só funciona pq por enquanto ainda é mais fácil assistir à Globeleza que achar uma rebolante (ou “rebolanta”; se uma mulher que preside é “presidenta”, uma mulher que rebola é “rebolanta”, uma água que ferve é “ferventa”… mas estou digredindo) que seja mais do agrado do freguês. Em muito breve será possível assistir na TV da sala os vídeos dos youtube da vida, e certamente haverá um meio de enfileirar apenas vídeos de moças de um determinado biotipo, com uma determinada quantidade de espinhas, cabelo cortado deste ou daquele jeito, rebolando ao som deste ou daquele tipo de música. Aí a Globeleza vai se aposentar por ter se tornado minoritária (apelando apenas aos que preferem alcatras, digo, mulheres com aquele biotipo, rebolando ao som daquele tipo de música), mas não antes.
Mas o perigoso, o realmente assustador, não é que haja uma procura por moças “rebolantas” grande o suficiente para que a Globeleza atraia espectadores para assistir às iscas de comercial de que ela seja a estrela (sim, toda a programação da TV serve para atrair as pessoas para assistir aos comerciais, com o volume mais alto para que eles as sigam até o banheiro). O mais perigoso é que estas características do meio (facilidade de apresentação de ódio, sensualidade desordenada e cobiça) sejam empregadas hoje de forma magistral para dessensibilizar as pessoas no sentido desejado pela elite revolucionária.
A sensualidade desordenada é focada na fornicação e na sodomia, e o ódio na religião e na moral tradicional. A campanha pelo fim da infância continua a passos largos, estando agora na etapa de confundir as coisas e tratar como “pedofilia” o mesmíssimo desejo sexual desordenado (por não ser voltado ao casamento) por pessoas jovens (15, 16, 17 anos de idade) que é incentivado o tempo todo na TV, para que os espectadores comecem a se ver como “pedófilos” e não percebam a distinção enorme que há entre um maníaco que violenta criancinhas e um sujeito que quer namorar no portão uma moça que em qqr outro século já seria mãe de família.
A Globeleza, dentro deste quadro, é simplesmente a parte boa: é uma moça bonita (imagino; não sei se a Globeleza cuja foto eu vi há alguns anos ainda esteja no emprego), numa versão animada e com música de qqr pintura clássica que retrate a beleza feminina. Muito pior do que ela é o que há em torno, na programação comum. Muito pior do que ela é o que se ensina na TV que é o objetivo das moças bonitas: servirem de objeto de luxúria, puro e simples. Muito pior do que ela é o resto da programação, que é na verdade o que faz com que ela seja muito mais ofensiva do que deveria ser ou seria em outros tempos.
Sou, sim, a favor de não haver Globeleza. Mas quem faz da Globeleza uma semi-pornografia é o resto da programação, que é, em si, muito mais perigosa que uma moça bonita com pouca roupa. Se não houvesse novelas e programas aos magotes ensinando a ter um olhar pornográfico, ensinando a desordenar a sexualidade, a Globeleza não faria mais mal que a Vênus de Boticelli.
Tive muitos problemas para entender o conceito de Acédia (ou Acídia), o pecado capital vulgarmente chamado de preguiça. Confundi-a com depressão leve, com tibieza, com ócio ou torpor. E ensinavam-me que ela poderia se manifestar como ativismo e eu ficava mais perdido ainda. Até que topei com uma definição, do professor Carlos Ramalhete, que tornou o conceito claro como água de nascente.
Acédia é não fazer o que se deve naquele momento. Claro, simples, inteligível por qualquer mané.
Um exemplo: eu deveria estar dormindo, mas estou escrevendo sobre a acédia. Não importa que o meu ato corrente seja bom e louvável. Mas não é o meu dever no momento, é uma fuga dele, logo, é acédia.
Há pessoas que rezam quando deveriam trabalhar, trabalham quando deveriam rezar, fazem trabalho voluntário quando deveriam estudar, fazem cursos quando deveriam descansar, descansam quando deveriam cultivar amizades. Não citei um ato mau, mas tudo isso é acédia.
Essa deficiência é traiçoeira justamente por isso. Ela anestesia a consciência quando estamos realizando um ato bom. Sem embargo, de fato o ato é bom, mas não é o que exige-se de nós naquela hora.
Saber o que é acédia e que se a pratica é um primeiro largo passo para curá-la. A consciência racional de cada ato, sabendo encaixá-lo entre “devido” e “indevido”, já desperta a alma — e a atenção — para que se volte ao dever real.
E, assim, volto a tentar dormir. Boa noite!
Fui um dos últimos a saber que os aeroviários entrarão em greve, amanhã, dia 23 de dezembro, dia em que eu, e muitos outros, viajaremos para visitar nossos familiares (pais idosos, parentes que há muito não se veem) e passar com eles o Natal, em família, como no episódio que deu origem à grande festa.
E já adianto: é uma falta de respeito, e muito mais.
Caso você não queira ler, já dou um comentário para você fazer lá embaixo, na caixa, aí não precisa ponderar o assunto:
Você não pensa na condição dos aeroviários, só quer passar o Natal com mamãe, e por isso ficou bravinho com o exercício do justo direito de greve.
As companhias aéreas passam meses planejando a operação de Natal. É um dia completamente atípico, eles precisam cancelar voos, marcar outros, reestruturar a malha, para poder atender a demanda adequadamente sem ter prejuízo com isso. Um software de planejamento de voos pode ficar algumas horas calculando uma malha, ainda mais numa situação atípica. Às vésperas do Natal, tudo é sensível, um atraso pode gerar um efeito cascata, um problema no Rio Grande do Sul afeta os passageiros do Acre (ou afetaria, se ele existisse).
E o que os sindicalistas fazem? Marcam a greve exatamente para o dia mais sensível e complicado.
O direito à greve é essencial e, geralmente, só o cassaram os grandes ídolos dos sindicalistas, nessas ironias em que a gente prefere não pensar para não se deprimir. Mas há de se diferenciar greve de chantagem.
A greve poderia ocorrer em qualquer dia. Poderia ser hoje, ou ter sido ontem. Isso geraria prejuízos aos empregadores, e seria a “moeda de troca”, a demonstração de poder por parte dos sindicalistas. Seria uma greve, normal, aceitável, como qualquer outra. Daria para negociar tranquilamente.
Eles preferem a bomba atômica para ganhar a rendição. Preferem separar famílias no Natal. Preferem tentar um “tudo ou nada”. E, quer saber, torço pra que fiquem com o nada.
Greve não é chantagem, bons juízes sabem isso. E, se os grevistas forem demitidos (por justa causa), saberão julgar os casos com decência.