... this is not a blog!
3. A IDÉIA DA UNIVERSIDADE
E AS IDÉIAS DAS CLASSES MÉDIAS
OTTO MARIA CARPEAUX
Jamais esquecerei o dia em que entrei pela primeira vez, com toda a ingenuidade dos meus dezoito anos, no solene recinto da Universidade da minha cidade natal. Um pórtico silencioso. Nas paredes viam-se os bustos dos professores que ali estudaram e ensinaram; no busto de um helenista lia-se a inscrição: "Ele acendeu e transmitiu a flâmula sagrada"; e no busto de um astrônomo: "O princípio que traz o seu nome ilumina-nos os espaços celestes." No meio do pátio, num pequeno jardim, sob o ameno sol de outono, erguia-se uma estátua de mulher nua, com olhos enigmáticos: a deusa da sabedoria. Silêncio. Não esquecerei nunca.
A decepção foi muito grande. Via a biblioteca coberta de poeira, os auditórios barulhentos, estupidez e cinismo em cima e em baixo das cadeiras dos professores, exames fáceis e fraudulentos, brutalidades de bandos que gritavam os imbecisslogans políticos do dia, e que se chamavam "acadêmicos".
A última vez que passei perto deste "templo das Musas", o edifício estava fechado; os estudantes haviam-se juntado a uma imensa manifestação popular. Sabia muito bem o que isso significava para mim: um adeus para sempre. Olhando pelas frestas das portas monumentais — estávamos na primavera — via sob a luz branda do sol os pórticos, as velhas pedras, o jardim, e a deusa nua, tendo nos lábios o sorriso enigmático da morte. E reconheci um fim definitivo.
Por toda parte, as universidades são doentes, senão moribundas, e isto é grande coisa. Os iniciados bem sabem que não é esta uma questão para os pedagogos especializados. Das universidades depende a vida espiritual das nações. O fim das universidades seria um fim definitivo. O abismo entre o progresso material e a cultura espiritual aumenta de dia para dia, e as armas desse progresso nas mãos dos bárbaros é fato que clama aos céus. Os edifícios das universidades resistem ainda, e neles trabalha-se muito, demais, às vezes, mas o edifício do espírito, esta catedral invisível, está ameaçado de cair em ruínas. Em tempos mais felizes a sueca Ellen Key dizia com sutileza: "Cultura é o que nos resta depois de termos esquecido tudo quanto aprendemos." E, deste modo, somos riquíssimos de saber e mendigos de cultura. Hoje em dia Herbert George Wells pode dizer: "We are entered in a race between education and catastrophe." "Entramos numa corrida entre educação e catástrofe." Aí está a questão da Universidade.
Quem é o culpado? Evidentemente, é inadmissível simplificar uma discussão de tal envergadura. Acusa-se o Estado por ter-se intrometido, e acusa-se o Estado por não se intrometer. Acusam-se os professores por mergulharem nos ensinos profissionais e descuidarem-se da ciência desinteressada, e acusam-se os professores por mergulharem na ciência pura sem saberem ensinar. Aqui, queixam-se de as universidades não fornecerem elites, de que a nação tem necessidade; ali, queixam-se de que as universidades fornecem elites demais, um proletariado intelectual. Abundam os remédios propostos. Desejam salvar as universidades pela separação entre as instituições puramente científicas e os institutos de ensino, o que agravaria o problema em vez de o resolver: a ciência seria, assim, afastada da vida, e o ensino entregue à rotina. Falham, igualmente, as tentativas mais bem pensadas de curar a doença infundindo uma nova crença ou uma velha fé: teremos os mesmos estudantes, os mesmos bacharéis, os mesmos doutores que antes, e as suas boas crenças não resolverão a doença da Universidade. Porque não cabe à Universidade formar crentes nem sequer sugerir convicções, mas dar ao estudante capacidade para escolher a sua convicção. Já abundam os homens cegamente convictos, muito "práticos", "úteis" para os serviços do Estado, da Igreja, dos partidos e das empresas comerciais. Pode ser que todas essas instituições lamentem, em breve, a abundância de homens convictos e a falta de homens livres. Então, acusar-se-á amargamente o utilitarismo das universidades modernas. O utilitarismo é o inimigo mortal da Universidade.
Mas o que quer dizer "prático", "útil"? A resposta não é tão simples. Por felicidade os poderosos deste mundo introduziram um novo ponto de vista, ao qual julgo que devemos algumas perspectivas novas.
Para a mentalidade média do nosso tempo a utilidade das ciências é determinada segundo as aplicações práticas: a física e a química, que nos forneceram a luz elétrica e os gases asfixiantes, são as ciências úteis; a história e a filosofia, que não nos fornecem nada, são ciências "inúteis". Apelo desta sentença para a sabedoria de certos homens práticos, que disso entendem muito bem. Certos regimes, ditos totalitários, acharam indispensável regular pela força o estudo das ciências, cujas conseqüências práticas poderiam abalar estes regimes. Ora, que vemos nós, com surpresa? Estes regimes não se ocupam, absolutamente, com as ciências "práticas", a física e a química, que continuam bem tranqüilas. Mas as ciências totalmente inúteis, a história, a filosofia, os estudos literários, são justamente as favoritas dos regimes totalitários, que as abraçam até sufocá-las. É digno de nota.
Mas o que é ainda mais notável é uma certa coincidência. Sabemos que a Universidade, Universitas Litterarum, é uma criação da Idade Média. Ora, os ditos regimes não se ocupam com as ciências naturais, que a Idade Média conhecia pouco, e que se juntaram mais tarde à Universidade. Tratam somente das "velhas" ciências, das Litterae, que na Idade Média já eram conhecidas, e que formam a verdadeira alma da Universidade. Está claro. Foram justamente estas Litterae que formaram os caracteres das nações; e aquele que desejar transformar uma nação deverá transformá-las integralmente. Eles sabem o que é uma universidade.
A história das universidades é a história espiritual das nações. A França medieval é a Sorbonne, cujo enfraquecimento coincide com a fundação renascentista do Collège de France, e cujo prolongamento moderno é a École Normale Supérieure. A Inglaterra, mais conservadora, é sempre Oxford e Cambridge. A Alemanha luterana é Wittenberg e Iena; a Alemanha moderna é Bonn e Berlim. As velhas universidades são de utilidade muito reduzida. Elas não fornecem homens práticos; formam o tipo ideal da nação: o lettré, o gentleman, oGebildeter. Elas formam os homens que substituem, nos tempos modernos, o clero das universidades medievais. Elas formam os clercs.
As universidades americanas têm a mesma origem. As velhas universidades da América Latina — Lima, México, Bogotá, Córdova — são fundações da Coroa de Espanha; mas foram, desde o início, confiadas aos frades, e já a primeira cédula de fundação, a ordem real do imperador Carlos V, de 21 de setembro de 1551, dá claramente a entender o sentimento da responsabilidade perante o espírito, o espírito desinteressado da Universidade medieval: "Para servir a Deus, Nosso Senhor, e ao bem público de nossos reinos, convém que nossos vassalos, súditos e naturais tenham Universidades e Estudos Gerais em que sejam instruídos e titulados em todas as ciências e faculdades, e pelo muito amor e vontade que temos de honrar e favorecer aos de Nossas Índias, e desterrar deles as trevas da ignorância, criamos, fundamos e constituímos na cidade de Lima dos reinos do Peru, e na cidade de México da Nova Espanha, Universidades e Estudos Gerais." Nada mais eloqüente, admirável, do que semelhantes termos haverem sido empregados quando os puritanos fundaram, em 1636, a primeira universidade da América inglesa, a de Harvard: "After God had carried us safe to New England, and we builded our houses and settled the Civil Government; one of the next things we looked after was to advance Learning and perpetuate it to Posterity, dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches, when our present Ministers shall lie in the dust" (New England’s First Fruits, 1643). ("Depois que Deus nos tinha seguramente conduzido a Nova-Inglaterra, e que construímos as nossas casas e estabelecemos um governo civil, uma das nossas primeiras ocupações foi estimular o ensino e perpetuá-lo para a posteridade, com receio de deixar às igrejas um clero iletrado quando os nossos clérigos atuais jazerem em pó.")
O que resta destas Universitates Litterarum? O nome. Já não formam lettrés, nem gentlemen, nem Gebildeter; formam médicos, advogados, professores. As universidades tornaram-se lugares de investigações científicas; e é um romantismo utilitário que vem muni-las das asas do progresso. Não há maisclercs, só há estudantes.
Quem é o culpado? Ainda uma vez apelo para aqueles que disso entendem. Por toda parte onde há aqueles regimes os estudantes estão nas vanguardas da violência. Não é um acaso. Ouso responder: os estudantes são os culpados.
Há duas espécies de estudantes: chamá-las-emos os "ricos" e os "pobres", sublinhando que há pobres entre os "ricos" e ricos entre os "pobres"; são apenas duas expressões cômodas para abraçar uma generalização inevitável. Os estudantes "pobres" são aqueles que estudam "para a manteiga e para o pão"; estudam para se assegurarem um melhor sucesso na luta pela vida. Seria cruel e estúpido censurá-los. Antes, devemos admirá-los, em virtude dos sacrifícios, muitas vezes imensos, feitos por eles e seus pais para melhorar um futuro incerto e tornar a existência mais digna. Todavia, importa não se dissimularem os graves inconvenientes. Estudantes "pobres", há muitos deles: vivem embaraçados pela miséria, pelas ocupações acessórias para ganhar a vida; sobretudo têm pressa de terminar os estudos. Junte-se a isto a benevolência, plenamente justificável, que os examinadores lhes devem como recompensa dos seus esforços. Em suma, o nível baixa sensivelmente. O nível baixa, dizemos, até o nível dos estudantes "ricos". São estes os que têm necessidade de um grau acadêmico, porque o pai tem um, porque isto dá certa consideração na sociedade ou para adornar fortuna um pouco recente. Entre os estudantes "ricos" existem os pobres que desejam manter penosamente o standard de uma família em decadência, o que é, aliás, muito louvável. Existem outros verdadeiramente ricos, que não têm necessidade de estudar, mas que através dos estudos testemunham grande respeito às ciências; e estas, por sua vez, precisam deles, para subsistir materialmente. Em todo caso, os seus estudos não são de necessidade absoluta; eles não estudam mais do que o necessário, o indispensável para passar nos exames; os esforços ulteriores parecem-lhes ridículos. E são eles que, pela sua situação social, determinam o nível geral. E esse nível é a morte da Universidade.
Queixam-se de que as universidades já não fornecem elites. Sim, mas em compensação fornecem verdadeiras massas, porque as ciências modernas e suas investigações têm menos necessidade de cérebros que de batalhões de estudantes; e para isto eles satisfazem. A inteligência que é precisa para estudar uma profissão, mesmo acadêmica, não é tão grande como os leigos imaginam. Há vários séculos um sábio inglês, o cônego dr. Copleston, fellow do Ariel College, em Oxford, predizia: "Ainda que a ciência seja favorecida por essas concentrações de inteligência a seu serviço, os homens que se encerram nas especializações têm a inteligência em regresso" (citado pelo cardeal Newman, The Idea of a University, p. 72). É o regredir de uma elite à condição de massa ornada de títulos acadêmicos.
É preciso que se digam, aqui, algumas verdades muito impopulares e muito desagradáveis. Existe Inteligência e existem "intelectuais". Intelectuais são os médicos, os advogados, os funcionários superiores de toda espécie, os especialistas científicos de toda sorte. Mas deve-se dizer que somente uma parte desses "intelectuais" pertence à Inteligência, que é, por seu lado, o resto dos clercs, da elite de outrora. Sejamos sinceros: podemos ser bom médico, bom advogado, bom professor, e ter o espírito preso aos limites da profissão; e sabemos que o grau acadêmico nem sequer é sempre a garantia de boas qualidades profissionais. Mas ele confere sempre uma autoridade social. José Ortega y Gasset caracterizou essa nova espécie de intelectuais, violentamente, mas sinceramente: "Nuevo bárbaro, retrasado con respecto a su época, arcaico y primitivo en comparación con la terrible actualidad de sus problemas. Este nuevo bárbaro es principalmente el profesional más sabio que nunca, pero más inculto también — el ingeniero, el médico, el abogado, el científico" (Misión de la Universidad, Obras, p. 1289).
O fato central da nossa época é a violência generalizada a todos os setores da vida pública, a violência que pretende substituir o espírito no seu papel guiador das massas. Dessas massas que os pensadores políticos muitas vezes confundem com o proletariado econômico. Sim, mas o espírito proletário, o espírito da reação violenta contra certas condições econômicas e sociais, não está exclusivamente ligado às massas obreiras; participam dele todas as "massas", como fenômenos sociológicos, e a massa dos intelectuais também. É o fato central da nossa época: as classes médias, mesmo antes de serem proletarizadas, mesmo justamente para evitar a ameaça da proletarização, transformam-se em massas proletárias. E esta proletarização interior é um fenômeno da educação. Chama-se "classes médias" o problema central da nossa época. O livro mais bem documentado que conheço sobre o fascismo, Fascisme et grand capital, de Daniel Guérin, apresenta a tese de que o fascismo é a última expressão do grande capitalismo. Tese errônea. Provando irrefutavelmente que o grande capital se serviu do fascismo para bater o movimento trabalhista, Guérin esquece-se de concluir que o instrumento se mostrou, enfim, mais forte do que o mestre, e que os operários e os capitalistas perderam, juntos, a liberdade de movimento, pela ação deste inimigo de ambos — as classes médias. Fato fundamental do nosso tempo: o fascismo propaga-se e vence através das classes médias, das quais é a expressão triunfal.
O fascismo foi impossível na Rússia. É também um fato fundamental que a Rússia não conheceu, não teve uma classe média. Ora, seguindo a corrente da época, o bolchevismo criou uma classe média. A burocracia soviética, os stakhanovistas e outras camadas privilegiadas do operariado não são outra coisa senão uma nova classe média. Considerando, nos outros países, a ascensão de camadas igualmente novas, que o século XIX ainda não conhecia, verdadeiros exércitos de empregados privados, de funcionários públicos, de pequenos empresários, todos formados num regime de ensino secundário ou superior muito facilitado, essas massas de homens, todos mais ou menos educados, essas multidões de "pequenos intelectuais"; considerando essas multidões de homens novos, nem capitalistas nem trabalhistas, que Karl Marx não podia prever, deve-se precisar o pensamento: o fascismo e o bolchevismo têm o lado comum de serem expressões das novas classes médias. E a ideologia que permite explicar o espírito das novas classes médias é a ideologia pequeno-burguesa, violentamente revolucionária e antiintelectualista.
Explica-se, por isso, que Georges Sorel, o pai espiritual comum do fascismo e do bolchevismo, Georges Sorel, o ideólogo da violência, seja um homem profundamente pequeno-burguês, representante típico das classes médias francesas, preocupado com a decadência das "autoridades sociais", que ele concebeu fielmente no espírito conservador de Le Play; preocupado, enfim, com a decadência vital da raça latina, pela qual ele responsabiliza violentamente a Inteligência; ao espírito ele prefere a vitalização pelos instintos bárbaros da massa.
Fica-se a admirar que Sorel fale em decadência, na França dos Taine e Bergson, dos Flaubert e Proust, dos Mallarmé e Claudel, dos Degas e Cézanne, dos Rodin e Debussy, dos Pasteur e Henri Poincaré, numa das épocas mais magníficas do espírito francês. Mas é por isso mesmo. Sorel é violentamente antiintelectualista. Vê no espírito e suas obras o grande obstáculo da volta ao primitivo. Neste ponto, Sorel parece sobretudo "moderno", contemporâneo de nós outros. É a hostilidade ao espírito que liga Sorel diretamente às novas classes médias.
No pensador revolucionário Sorel não se viu o conservador, o representante das classes médias. O mal-entendido correspondente não viu nas novas classes médias as possibilidades revolucionárias. Durante um século, o século XIX, esqueceu-se que a classe média fizera a Grande Revolução. Via-se na classe média a classe essencialmente conservadora, a portadora mesma das tradições humanísticas, e ela o era enquanto os princípios consolidados da Revolução Francesa abrigavam a classe média contra as ameaças do grande capitalismo e do movimento socialista. Isto, porém, acabou. Chegou o dia de uma nova classe média, pronta a vencer por uma nova revolução violenta ou, como na Rússia, triunfar contra um regime obsoleto. Foi Sorel quem emprestou às novas classes médias a ideologia revolucionária.
Poder-se-ia acreditar que os grandes obstáculos dessa revolução fossem os capitalistas e os trabalhadores, ou, na Rússia, um regime milenário e eclesiasticamente consolidado. Engano. Vimos a fraqueza incrível do regime tzarista, a derrota fácil dos socialistas, o suicídio dos capitalistas. O verdadeiro obstáculo — e Sorel o previra bem — era a Inteligência. É ela que merece as diatribes mais cruéis dos chefes e dos caudilhos. Para a vitória final, precisa-se acabar com a Inteligência.
Como? Não é a classe média o principal agente dos movimentos espirituais? Sim, é, ou melhor, foi. O século XIX, o século liberal, abre a todos todas as possibilidades. A educação superior é o caminho da ascensão. A preeminência da classe média no século XIX baseia-se na sua cultura universitária. Mas o século XX acaba com isso. O grande capitalismo precisa mais de exércitos de pequenos empregados do que de self-made men; as profissões liberais estão superlotadas; o movimento socialista repele os que resistem à proletarização e suas humilhações e privações. Privada dos privilégios da Inteligência, a classe média quebra furiosamente o instrumento, como uma criança quebra o brinquedo insubmisso. É uma criança essa nova classe média; mas uma criança perigosa, cheia dos ressentimentos dosdéclassés, furiosa contra os livros que já não sabe ler e cujas lições já não garantem a ascensão social. Está madura para a violência.
A violência é o fenômeno "espiritual" central das novas classes médias e da nossa época; significa a determinação de empregar todas as armas, todas as que o esforço do espírito criou, para conseguir um fim material: a salvação social da classe. Não se admitem outros fins. Ridiculizam ou anatematizam todos os esforços independentes, desinteressados, do espírito. Admiram a especialização útil do "intelectual de profissão", e banem o humanismo do "professor". A violência antiintelectualista das novas classes médias é, afinal, uma falta de educação, ou, antes, o fruto de uma falsa educação. Fruto da falsa idéia que as classes médias formavam da Universidade: da nova Universidade, que fornece exércitos de médicos, advogados e técnicos, em vez declercs, de uma elite.
O problema capital do nosso tempo, o problema da elite, é, no fim das contas, um problema de pedagogia humanística. Existe mesmo, hoje, política que consiste na exterminação das elites pelas armas dos especialistas. E foi bem preparada: da diminuição das lições latinas existe apenas um passo para a destruição dos livros e dos museus.
O resultado mais freqüente da moderna educação universitária é um decidido adeus aos livros. Mais tarde, combaterão as "línguas mortas" na escola. Enfim, declararão inútil todo o ensino secundário, com as suas idéias vagas e inúteis duma "cultura geral"; talvez toquem, com isso, no ponto nevrálgico da discussão. Todo o problema espiritual dos nossos dias é, pois, um problema de falta de educação humanística, um problema pedagógico; e todo o problema pedagógico dos nossos dias é um problema da escola específica das classes médias, da escola secundária.
Segundo o regime escolar vigente em todos os países, sem exceção, a Universidade dedica-se ao ensino profissional superior, enquanto a "cultura geral" fica reservada ao ensino secundário, aos ginásios e aos liceus. Quer dizer: o ensino da cultura geral limita-se aos jovens de dez a dezoito anos. Depois, a "cultura" termina, e a medicina e a jurisprudência começam, sem nenhuma "cultura geral". Os conhecimentos do ensino secundário empalidecem, naturalmente, com o tempo; mas ainda há coisa pior: todo esse ensino de "cultura geral" é feito ao alcance de jovens de dez a dezoito anos: a história, a filosofia, a literatura, amoldadas ad usum Delphini, e forçosamente puerilizadas. E aí fica. Nunca mais o jovem médico ou engenheiro ouve falar em história, filosofia, literatura, exceto pela imprensa ou pelo rádio, que se colocam ao alcance do espírito das grandes massas, pueris por natureza. Resultado: um espírito artificialmente preservado no estado pueril com uma formação profissional superposta. Conheço bem as numerosas exceções que felizmente existem. Mas, em geral, estas massas graduadas se distinguem dos iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas. Ainda uma vez cito Ortega y Gasset: "La peculiarísima brutalidad y la agresiva estupidez con que se comporta un hombre, cuando sabe mucho de una cosa y ignora de raíz todas las demás" (O. C., p. 1291). Eles, porém, os iletrados, têm sempre razão, porque são muitos e ocupam um lugar de elite, esse "proletariado intelectual", sem dinheiro ou com ele, isso não importa. Julgam tudo, e tudo deles depende. Lêem os livros e decidem sobre os sucessos de livraria, criticam os quadros e as exposições, aplaudem e vaiam no teatro e nos concertos, dirigem as correntes das idéias políticas, e tudo isto com a autoridade que o grau acadêmico lhes confere. Em suma, desempenham o papel de elite. São os nouveaux maîtres, osseñoritos arrogantes, graduados e violentos; e nós sofremos as conseqüências, amargamente, cruelmente.
"We are entered in a race between education and catastrophe." Wells tem muita razão. Mas é de grande importância datar a desgraça. Esta catástrofe irrompeu sob o signo do progresso, e o progresso ilimitado, muito do gosto de um Wells, cavará mais profundamente o abismo. O verdadeiro caminho é a volta.
Temos mais uma vez "a disputa do medievalismo". Uma coisa fica, porém: a Universidade é uma criação da Idade Média. Todas as universidades medievais são, por princípio, instituições "clericais": elas formam os clercs. O restabelecimento das universidades "clericais" é uma restauração de tradições.
Quatro ou cinco faculdades reunidas não constituem ainda uma universidade. Elas não criam esta "convivence of sciences, which forms a philosophical habit of mind",1 de que fala o cardeal Newman. Não se trata destas ciências ou daquelas profissões. Trata-se do espírito comum que as anima, do espírito filosófico, antiutilitário, desinteressado, que as nossas universidades perderam, e que é a própria Idéia de Universidade. Derrubemos, pois, este estado de coisas. É ao ensino secundário que cabe o preparo do ensino profissional, dispensado nos hospitais e na magistratura. Em conclusão, é à Universidade que incumbe a formação do espírito da "clericatura".
Voltemos aos estudantes: o seu utilitarismo, mais perigoso que o das ciências, perdurará enquanto a freqüência das universidades for a chave para as posições de mando na sociedade. Verdadeiramente, o oposto deste utilitarismo é o desinteresse, no qual Newman via o espírito e a idéia de universidade, o espírito do clero universitário medieval, que se sentia independente do mundo e somente responsável perante Deus. Sem tais padres o altar fica vazio e o culto abandonado. Poderia chegar o dia em que ninguém compreenderia mais as fórmulas nem os poemas, em que os quadros de Rembrandt seriam pedaços de tela e as partituras de Beethoven farrapos de papel; dia da barbaria, em que a história humana se transformaria, pela sucessão de desgraças, num formigueiro mal organizado. E este dia talvez já esteja mais próximo do que realmente pensamos. "Somos a última reserva, fiquemos conscientes disto" — dizia Hugo Ball. Fiquemos conscientes,"dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches, when our present Ministers shall lie in the dust".
NOTAS
1. "Convivência das ciências, que forma um hábito filosófico da mente." [N.E.] Voltar
FONTE
Otto Maria Carpeaux. “A idéia da universidade e as idéias das classes médias”, A Cinza do Purgatório. IN: OTTO MARIA CARPEAUX. Ensaios Reunidos 1942-1978 (Vol.1) De A Cinza do Purgatório até Livros na Mesa. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005.
Já declaro aqui meu voto para governador de São Paulo: o picolé de Chuchu, Geraldo Alckmin.
Contudo, o “socialista” Paulo Skaf trouxe um debate muito interessante com duas propostas polêmicas: cobrar mensalidades nas universidades públicas e abater do IPVA os gastos com pedágios.
A primeira eu sou completamente a favor, a segunda eu sou completamente contra.
O que é a Universidade pública no Brasil? Vou falar de alguns aspectos que vejo nas universidades paulistas, que são as que conheço melhor.
É um local em que há pesquisa de excelência, ao certo, mas ainda aquém de padrões internacionais. Há muita boa pesquisa mas — ainda mais — macaqueação de pesquisas estrangeiras e jogo da lógica das publicações. Isso funciona assim: você descobre algo mais ou menos significante, escreve um artigo, e manda para uma revista ou congresso. Depois, descobre mais uma coisinha, e atualiza o artigo para a próxima conferência ou revista. Publicar é o fim, não a ciência. Isso não acontece só no Brasil, é claro, mas essa lógica é patentíssima e grassa nas universidades.
O ensino não é lá maravilhas não, muitos professores ruins — que às vezes, mas só às vezes, são excelentes pesquisadores — sem didática, sem interesse pela docência, considerando aquilo um “mal necessário” (com essas palavras). Mas os alunos, selecionados em vestibulares rigorosos, costumam garantir o bom nível dos cursos, e uma formação diferenciada. Eu sei quanto o selo “Unicamp” pesa quando eu busco empregos — e, aliás, essa é a principal razão pela qual a sociedade sustenta a Universidade politicamente. É na esperança de seus filhos as cursarem e terem um “futuro garantido”. Parecido com o emprego público, mas um pouco mais honesto, porque dá espaço ao desafio e à prova da capacidade de cada um.
Apesar de exceções — maravilhosas, em geral — a Universidade é local de ricos e remediados. Sabe o estereótipo de playboy? Tem de monte. Mas cada um com uma máscara. Em alguns lugares é o clássico: o bombadinho de carrão que só quer saber de beber e festas. Em outros é o “hippie do dinheiro alheio”, o cara que não faz nada da vida — às vezes, nem tomar banho — e tem dinheiro dos pais (ou do Estado…) para isso. Às vezes é o revoltado comunista que não largaria o dinheiro do papai por nada, mas fica berrando pela socialização das terras, pelo fim da expropriação da mais-valia alheia ou — em alguns casos — pelo salário mínimo de R$2000,00 reais, afinal, é um absurdo que os pobres, coitadinhos, não tenham sequer 10% da sua renda familiar. Tudo isso dentro de um consumo de drogas ilícitas que é “só” 20 vezes maior que o da média da população e um consumo completamente irresponsável de álcool.
Tem também os que estudam e se dedicam, que são ridicularizados por sua turma, ainda mais se os chamam à consciência quando afirmam — corretamente — que levam a Universidade a sério. E, claro, um sem número de medíocres — o grupo no qual eu me encontrava quando lá — que, sem levar tanto a sério como os últimos, mas com o peso na consciência do fardo que representam, ou pressa de se formar e ganhar dinheiro, ou de entrar numa pós e fazer “só o que quer”, tentam fazer um uso melhorzinho da Universidade. Felizmente, são também muitos os medíocres, quiçá formem a maioria.
Isso é um retrato da graduação. A pós-graduação é um pouco melhor.
Dado esse retrato, qualquer discurso de “não podemos cobrar pela Universidade pública” que se baseie na formação da graduação é, na melhor das hipóteses, ignorante. Em geral é hipócrita mesmo. Há uma quantidade não-desprezível de pessoas que precisam de ajuda para se manter — recebem bolsas, ou moradia, para permitir seus estudos — e, cobradas mensalidades, esse número aumentaria, é claro. Mas da mesma forma que há seleção para bolsas auxílio, pode haver uma seleção para bolsas de gratuidade (por critérios sociais com garantias meritocráticas mínimas e justas).
A Universidade paulista é paga com o dinheiro do ICMS, um imposto que incide sobre todos (e, proporcionalmente, mais sobre pobres, é um imposto “regressivo”, praticamente). Dessa forma, uma conformação social em que as classes C, D e E correspondem à maioria acachapante paga (desproporcionalmente nos mais pobres) para os estudos (nem sempre levados a sério) de uma conformação social cuja maioria é das classes A, B e C. Se existe alguma coisa que eu consigo chamar de “injustiça social”, isso é a Universidade gratuita.
Em tempo, eu não tenho problemas com o fato de que as universidades de excelência sejam preenchidas, em sua maioria, pelos mais ricos. A Universidade não serve a fazer “justiça social”, mas a produzir uma elite intelectual (graduação) e conhecimento científico (pós-graduação). É triste que não se esteja sondando por talentos melhores nas camadas pais pobres, mas isso é um problema muito mais amplo.
Como contraponto à cobrança de mensalidade, concedo que a gratuidade é justamente o que torna a Universidade pública atraente, a sua isca para ter os melhores alunos. Com a cobrança, muitos podem preferir estudar em Universidades particulares razoáveis, em que não terão os custos de morar em outra cidade. Elas acabariam se tornando muito “locais”, perdendo os talentos do resto do estado ou do país. Food for thought
Deixe seus comentários a respeito aí embaixo! Podemos fazer uma boa discussão :)
Vamos adiante. A outra proposta é terrível. O grande lance dos pedágios é que só são pagos por quem utiliza a rodovia. Quem não viaja, não paga. Uma família que passe o fim-de-semana em São Paulo não paga pela outra que resolve descer a serra e entupir a Baixada Santista. No Maranhão, quem toma Guaraná Jesus, não deveria pagar pela logística do Antarctica.
Quando você propõe debitar do IPVA o gasto com pedágios, você inverte essa lógica. Quem não sai da cidade, paga o mesmo IPVA de quem viaja, porque abate nos impostos o preço do pedágio. Isso também é nocivo porque, de certa forma e indiretamente, o governo está pagando pela manutenção das rodovias, que é precisamente o que a concessão pedagiada tenta evitar. Por fim, eu concordo que, por causa dos pedágios altos, diminua-se o IPVA. De todos. Ao considerar o modelo paulista de concessão, que são pedágios caros nas principais para permitir a manutenção das vicinais (o que, embora choque os liberais mais extremos, não me parece um negócio ruim), o IPVA serve apenas à manutenção das vias municipais e, portanto, não precisa ter um valor tão alto.
Dá uma boa conversa isso tudo. Pode chegar de voadora nos comentários abaixo!
Enviei para o Sensacionalista no nome de Guilherme Bonense, Rio de Janeiro
Na noite dessa sexta-feira, 25, na sede da CBF na Barra da Tijuca, RJ,
fechou-se um contrato importante entre a produtora de jogos Midway e a
Confederação. A empresa adquiriu, por US$66,6 mi, os direitos de
imagem e nome do jogador Felipe Melo, para uso no próximo jogo da
série Mortal Kombat, previsto para 2011.
A série Mortal Kombat é uma série de jogos de luta com extrema violência e muito derramamento de sangue.
Depois do jogo do Brasil, a Midway se mostrou interessada, mas a decisão veio de verdade quando viram a repercussão no Twitter.
“É incrível, além de ser perfeito para o nosso estilo de jogos, ainda houve esse buzz todo em torno de seu nome. Com isso ganhamos destaque nas mídias sociais e marketing fácil para o nosso lançamento”, afirmou Sheng Long, relações públicas da companhia.
O acordo foi um pouco difícil de travar, segundo nos contam nossas fontes, por medo de que a FIFA não aceitasse. O lobista David Goro, da Midway, deu uma “mãozinha”: “Eles tinham que dar o braço a torcer, era só o que faltava para estourarmos com nosso jogo”, comentou Goro para o nosso repórter.
A FIFA aceitou que o nome e a imagem de Felipe Melo fossem usadas, contanto que o jogo não fosse de futebol nem tampouco Felipe Melo usasse uma bola: “Primeiro por propaganda enganosa, Felipe Melo não toca na bola, apenas nas canelas alheias.” disse-nos Joseph Blatter, e continuou: “Se quiserem fazer um jogo de futebol com ele que não seja o autorizado pela FIFA, que mudem o seu nome, eles sempre fazem isso. Sugiro Caceteiro”
A Midway, para aproveitar o momento, lançará uma versão modificada do seu último jogo “Mortal Kombat vs. DC” já com a participação de Felipe Melo. Conseguimos acesso às primeiras imagens, que acompanham este artigo.
Depois do contrato firmado, começaram a aparecer mais propostas. Apesar do sigilo da CBF, descobrimos que, entre os interessados na imagem de nosso volante, aparecem uma clínica de estética, uma produtora de jogos de guerra, e o cineasta Quentin Tarantino. O autor de “Bastardos Inglórios” não confirmou, mas deu a seguinte declaração: “Ver Felipe Melo jogar é para mim uma experiência mais marcante que a famosa cena da orelha de Cães de Aluguel. É uma violência viva, real, algo que mesmo eu nunca consegui criar em meus filmes”.
Contribuíram vários criadores de #FelipeMeloFacts no Twitter.

Jovem chega na Apple Store e trava a seguinte conversa com o vendedor:
— Moço, quanto está o iPod?
— Cinco mil reais
— Hein?!
— É, cinco mil reais.
— Nossa, está muito caro!
— Mas ele vem com 10G de música brasileira. O preço dele é R$800,00 e dos direitos autorais das canções é R$3200,00
— Ah é? E o que vem nele de música?
— Tem Chico Buarque, Mano Brown, MV Bill, Planet Hemp, … São canções escolhidas de uma lista preparada por uns burocratas do que eles consideram “música qualificada”
— Nossa, mas eu não gosto de nada disso. Acho até Velhas Virgens mais qualificado do que isso! Eu quero o iPod sem as músicas, compro no iTunes!
— Xi, não dá. Somos obrigados a vender com o bundle de música brasileira.
— Por quê?
— O PL 42/2012 estipula que todos os tocadores digitais de música venham com 5% da sua capacidade preenchido com música brasileira.
— Que projeto absurdo, como isso foi aprovado?
— Ah, aí não sei. Mas teve apoio de várias associações e sindicatos.
— Mas isso é um absurdo, eu quero escutar o que eu quero! Não o que o governo impõe!
— Bom, eles dizem que você pode optar por colocar outras canções e não escutar o que vêm, então não fere sua liberdade.
— Claro que fere! Eu não quero pagar pelo que eu não quero ouvir. Nem ter isso ocupando o espaço. Mas posso apagar, não?
— Não. Aliás, em determinados horários do dia, você tem que ouvir dessas canções pelo menos meia hora…
— Ah, vai. Tá me zoando, né? Errei o calendário, só pode ser, e é primeiro de abril.
— Não, hoje é 31 de março mesmo! — sorri meio amarelo o vendedor.
— Bom, mas depois eu posso comprar o que eu quiser no iTunes, né?
— Pode, pode sim — agora sorri com mais entusiasmo — mas para cada 5 canções compradas, uma tem que ser brasileira.
— Ok, ok. Agora — enfático — você está me zoando — e esboça um leve sorriso.
— Não, é isso mesmo.
Cabisbaixo, o jovem liga para um amigo:
— Zé, traz pra mim um iPod do Paraguai?
“Seu exagerado”
Acha mesmo?
O PL 29 acaba de ser aprovado na câmara dos deputados. Segundo o capítulo quinto do projeto, as empresas terão cotas de programas brasileiros qualificados (essa “qualificação” é definida por burocratas) obrigatórias a ser apresentadas em horário nobre numa média de meia hora por dia. Vai lá e lê!
Meu Deus, querida esquerda, você já foi mais inteligente.
Sim, eu sou um cara de direita, mas não quero o seu mal. Quero apenas que você defenda suas pautas históricas, ainda que esteja errada aqui e ali, e não apoiar quem vai contra os seus valores, só porque se opõe a uma força, real ou imaginária, de uma imaginada "direita". Ano passado, o presidente de Honduras foi deposto, legalmente. Como ele tinha ficado amiguinho de Chávez (para aprender a virar um ditador manipulando eleições), a esquerda inteira gritou, juntinho, "Soltem Barrabás Zelaya". Acontece que Zelaya era uma espécie de Sarney hondurenho. Não, não estou falando do bigode. Grande proprietário de terras, mandava em diversos lugares, colocava apadrinhados políticos, tinha seus feudos. Tudo que a esquerda sempre rechaçou. Mas bem, Zelaya está falando contra os EUA, então ele só pode estar certo! E foi isso, a esquerda apoiou o Sarney daquelas bandas (depois os petistas "puros" reclamam do que está acontecendo no Maranhão...). Bem, chega 2010 e ocorre uma controversa operação do exército de Israel contra uma flotilha, supostamente de ajuda humanitária (detalhe que flotilha significa "grupo pequeno de navios de guerra"). Vamos ver, e a Flotilha foi financiada e organizada pelo Hamas. O Hamas é misógino -- pelo menos para os padrões ocidentais, é claro; perto da Al Qaeda eles são feministas! As mulheres devem se esconder, devem obedecer. Os homens podem desposar várias. Nunca vi a esquerda defender nada disso, pelo contrário. Mas, bom, todo mundo da esquerda está com eles -- afinal, Israel é direitista e malvado -- então eu estou com eles também! Pouco antes disso, o Dunga defendeu um nacionalismo irracional, se eximindo de condenar a ditadura militar brasileira, durante a escalação da Seleção. Até que reclamaram um pouquinho, mas nada demais. Contudo, quando esse aprendiz de Médici é criticado pela Globo, pronto! Vira um herói. Marx no inferno céu Panteão da Revolução e Dunga na terra. Ele peitou a Globo, essa empresa maldita e reacionária! É isso aí, esquerda! Muito bom! Continue contribuindo desse jeito para um debate público pautado nos princípios éticos!Fernando Aires, grande amigo meu, acusou-me de “bancar o apologeta” no seu blogue. Vou tentar resumir a história.
Ele publicou uma parábola de um mestre sufi, como segue:
Na primeira história do livro I (“O Príncipe e a Criada”), Rumi conta sobre um príncipe que se enamora de uma criada, leva-a para sua e, quando ela adoece, busca de todas as formas sua melhora. Muitos médicos tentam, sem sucesso (e por contas próprias, sem contar com a orientação de Deus), curá-la, até que um anjo (em forma de médico) descobre que a causa da doença é o amor dela por outra pessoa – um ourives de uma terra distante. O príncipe manda buscar o amor de sua amada, e os casa.
Escrevi um longo comentário, de como isso era uma rejeição do “amor possessivo”, ou “ascendente”, ou ainda “concupiscente”, ou simplesmente “ἔρος”, citando a Deus Caritas Est, e colocando como algumas das decorrências da rejeição do valor desse amor o puritanismo, o “sexo laxo” dos dias atuais, ou a burqa e a circuncisão feminina dos muçulmanos extremistas. Pelo twitter, ele me responde que o objetivo não era discutir qual religião era a certa (até aí, ok!), e continua:
Daqui a pouco entra um Islamita a citar os extremos da sua religião. E todo o sentido de fazer algo que una em vez de separar se perde
Aí há um grande problema. Porque só pode haver verdadeira união quando todos comungam da mesma verdade. Do contrário pode haver tolerância, mas não união.
Dessa forma, o blogue só servirá à causa da união se disser a verdade em vez de “tentar diplomacias”. De agregar de diferentes “verdades” em busca de uma mesma espiritualidade (como ele pretende com a empreitada) não sairá nada. Pode haver diferentes pontos de vista sobre um mesmo fato, ou maneiras distintas de contar a mesma história, ou postulações diferentes da mesma realidade transcendente. Vamos bem. Mas quando há discrepância (muitas vezes frontal) isso é inconciliável.
Podemos entender o paraíso do Islã com suas 69 virgens como uma alegoria do prazer contido na felicidade eterna que o Cristianismo crê. Podemos entender Shiva e Visnu como metáforas da sociedade humana — e eu as uso com frequência — e Brahma como o Deus único. Mas há questões inconciliáveis.
Um muçulmano declara que o “Verbo Divino” se revelou no Corão. O Corão é o “Verbo feito Livro”, em uma analogia ao cristianismo. Para os Cristãos, a Revelação do “Verbo Divino” é a pessoa de Jesus Cristo — quem, para os islâmicos, é apenas um profeta. Isso é inconciliável. Não dá para alcançar uma união com essa radical diferença. O que não implica que não possa existir tolerância ou convivência pacífica.
No mais, se o que ele busca é um cerne transcendente semelhante, boa busca. Recomendo as leituras de René Guenon e Fritjof Schuon, cujas obras nunca li, mas sei que tratam exatamente disso.
O erro existe. Existe verdade e existe erro. A própria oração de São Francisco, que tanto lhe agrada, apela: “onde houver erro, que eu leve a verdade”. Ignorar isso é furtar-se a fazer o bem ao seu semelhante, é deixar de amar.
E amar, ainda que com chicotadas ou palavras duras (como fez o Amor feito carne), é para mim — e para todos os cristãos — o maior mandamento.